Limites da sabedoria e
transcendência da ignorância
Sobre o desafio do
Deputado Sandro Mabel
Marcos Carvalho Lopes*
“Sabedoria
tem limites, ignorância não”, sempre
repetia o saudoso professor João Pedro Mendes. O problema é que não temos nenhum
aparelho para medir com precisão o que é uma coisa e o que é outra. Por vezes
os dois termos se turvam e nossas certezas e crenças são colocadas
Algumas palavras do deputado Sandro Mabel, pré-candidato da Frente Liberal ao governo do Estado
de Goiás, despertaram em mim a necessidade de repensar minha profissão e
crenças. Disse o nobre deputado especulando sobre mudanças no programa Bolsa
Universitária que ocorreriam caso chegasse ao poder:
“DM – Os
critérios de concessão do Bolsa Universitária seriam
alterados?
Mabel – Sim, temos de priorizar alunos que
escolhem exercer funções que têm maior importância para o Estado. Exemplo: um
jovem quer estudar Filosofia. Acho que não temos que disponibilizar bolsa para
quem quer se especializar nesta área. Nada contra Filosofia, mas temos que ser
objetivos. Qual o retorno que o cidadão que cursa Filosofia trará para o
Estado? Para mim e para você, que pagamos impostos e pagamos nossos tributos?
Nada. Até pode ser que concedamos a bolsa nesses casos, mas deve ser
proporcionalmente menor ao apoio que concedemos ao camarada que faz um curso
técnico agrícola, agronomia, geologia, pra trabalhar com mineração. O
investimento deve voltar para a sociedade. Temos que ser pragmáticos. Vamos nos
focar em profissões que gerem terreno propício para o plano de industrialização
da Frente, porque aí a população não perde dinheiro. “
(http://www.sandromabel.com.br/noticia.php?id=65 )
Como “inútil” filósofo sinto-me
na obrigação de tentar – mesmo que de forma vã - entender as palavras do
deputado, afinal, se for o caso, melhor mudar de profissão e ajudar meu Estado.
Quiçá me candidate a deputado, embora tenha dúvidas sobre a necessidade
“pragmática” dessas figuras num país governado por medidas provisórias, onde os
conchavos e a troca de favores entre executivo e legislativo são lugar comum e
prática inevitável para garantir governabilidade. Talvez estejam gastando o
dinheiro de meus impostos - filósofo infelizmente ainda paga
impostos e tributos - à toa!
(Duas idéias desconexas surgem em minha mente
desocupada: (1) sabemos que no Brasil, historicamente, não temos um pensamento
de Direita elaborado nos parâmetros que estudamos na academia, Nossa direta é patrimonialista, fisiológica e clientelista.
Seu conservadorismo se confunde com as práticas mais antigas de coronelismo e fisiologismo. Será isso sintoma de uma
falta de perspectiva filosófica clara e excesso de pragmatismo? (2) Darci Acorsi, ex-prefeito de Goiânia e companheiro de Mabel no PL, tem formação filosófica.
Será que o deputado se lembrou disso quando falaou da
inutilidade do filósofo para a sociedade?).
Perspectiva
tecnicista de curto prazo - Em sua entrevista ao Diário da Manhã o pré-candidato ao
executivo estadual Sandro Mabel fala em construir uma
gestão eficiente, critica o clientelismo e afirma que em seu governo a
competência seria pressuposto para contratações, “o currículo terá que ser
aprovado antes da admissão”. Até aqui nenhuma novidade: existe um processo
continuo no Brasil de transformação republicana que, longe de ser uma
concessão, é uma necessidade inadiável. Explica Mabel
que seu discurso está centrado na “atração
de indústrias e gestação de renda”, numa fórmula pela qual a
industrialização resolveria todos os problemas da população: com emprego
garantido o trabalhador poderia ter acesso a cidadania, água encanada, esgoto...nesse sentido, o deputado reafirma a cartilha (neo)liberal. A ousadia do parlamentar está em dizer que: “A visão de longo prazo não é interessante
para políticos porque, se tudo permanecer como está, a
população sempre dependerá do governo”. Desse elogio ao imediatismo é que
se deriva a visão tecnicista apresentada por Mabel
quando fala do programa Bolsa Universitária: o Estado deveria financiar a
formação de trabalhadores que suprissem os interesses das indústrias que por
ventura quisessem se instalar no Estado.
O discurso de Mabel é
coerente quando sabemos que ele é empresário e conhece a gestão de indústrias.
Ele quer que o investimento volte “para a sociedade”, a classe organizada que
dirige nossos destinos. A “sociedade” de que fala Mabel
tem suas opiniões e anseios, mas pouco - ou nada - pensa no “social”. Como
explica o filósofo Renato Janine Ribeiro no livro A
sociedade contra o Social, no Brasil esses termos ganharam um
significado peculiar: “’A sociedade’ veio a designar o conjunto dos que detêm o
poder econômico, ao passo que o ‘social’ remete, na fala dos mesmos governantes
ou publicistas, a uma política que procura minorar a
miséria.” Dessa forma segundo Janine Ribeiro, “a sociedade é ativa: ela manda, sabe o que quer – e quer funciuonar por si mesma, sem tutela do Estado. Corresponde
em boa medida ao que, na linguagem marxista, se chamariam as classes
dominantes.”
O problema é que no discurso de Mabel
a sociedade não quer se livrar da tutela do Estado, como seria comum na
perspectiva liberal: ela quer usar o Estado para conseguir alcançar com maior
facilidade seus objetivos. Se uma empresa tem interesse na formação de certos
profissionais, não também seria útil para ela investir em sua formação? Não se
poderiam construir parcerias público-privadas nesse sentido? Noutros paises
empresas contratam mesmos professores especialistas nas áreas que lhes
interessam e pagam seus salários. O retorno: desenvolver profissionais
habilitados não só a trabalhar na área, mas aptos para a pesquisa, a inovação...
Esse é outro ponto de miopia de Mabel:
não é possível inovação tecnológica sem certo risco no investimento. A proposta
de Mabel tira a possibilidade de desenvolvimento
tecnológico e inovação, colocando nas costas do Estado o preço a ser pago mesmo
pela formação de mão-de-obra técnica. Seguindo a visão do deputado teríamos uma
industrialização baseada em paradigmas do início do século XIX.
A função
social da filosofia - Venho argumentando
a algum tempo sobre a importância da
filosofia na construção democrática do país. É necessário lembrar: a Ditadura
não veio de Marte! Não é só a técnica e a economia que mostram o que é uma
sociedade: valores culturais se traduzem em comportamentos, em costumes,
A
filosofia surgiu em Atenas quatro séculos antes de Cristo, em um contexto
”democrático”, nas discussões sobre o que deveriam ser as leis. O debate
político e jurídico colocou em questão a natureza, o bem, o justo, o belo, etc.
Esses temas deveriam ser entendidos pela razão humana: os homens deveriam dialogar, questionar e buscar posicionar-se diante dessas
questões. Em verdade, essa necessidade de provar racionalmente porque uma idéia
é defensável, perpassou todo o desenvolvimento da cultura ocidental a partir de
então... mesmo a religião cristã tentou equilibrar fé
e razão, de tal forma que, diferenças filosóficas levaram a divisões dentro da
Igreja e ainda hoje geram discussões.
O debate
sobre questões éticas e políticas é uma necessidade constante da vida
Se
“eles” não entendem o que “nós” filósofos queremos dizer é também porque “nós”
insistimos em não ser um deles: falando difícil, em um jargão inacessível, ou
mesmo, em língua estrangeira (por vezes morta )
fechamos a porta para o diálogo. Devemos sim, estar abertos para pensar nossa
realidade, como, por exemplo, faz Renato Janine Ribeiro, quando reconhece e
pensa os limites do papel das novelas no debate ético na sociedade brasileira
atual; só com essa postura aberta podemos alcançar uma percepção mais sincera
da função dos mecanismos de comunicação de massa, sem nos determos em
preconceitos.
Acredito
que a ‘vontade de filosofia’ (livros que se tornam best-seller, quadro no Fantástico,
livros em banca, etc. )pode ser vista como um sintoma
do processo de redemocratização. A sociedade tem necessidade de pensar temas
que antes não poderiam ser questionados diretamente: uma das primeiras medidas
da Ditadura foi retirar a filosofia do ensino médio. Penso que o Brasil começa
a se acostumar com a instituição da democracia e também desperta para a idéia
de que precisa se reinventar enquanto sociedade também democrática. Relembro: a
Ditadura não veio de Marte, nem a corrupção, nem a desigualdade social, etc.
A
cultura deve ser questionada para que a sociedade possa buscar alternativas,
caminhos de transformação. Não acredito que a filosofia, tomada
como produto de erudição ou como questionamento escapista,
possa contribuir para a democracia. A abertura para o diálogo, para pensar a
realidade é o que deve ser valorizado: se as pessoas têm essa abertura os
filósofos devem responder à altura, ou seja, sem esconder-se numa erudição
vazia ou no academicismo estreito. (Felizmente, não existe hoje muito espaço
para os que querem pensar a Filosofia com “f” maiúsculo, promovendo a “tirania
da razão”).
É nesse
sentido democrático e participativo que me proponho a fazer filosofia. O
retorno social talvez esteja em demonstrar alguma “competência socrática” para
questionar os pressupostos autoritários dos discursos vigentes.
(*) Marcos
Carvalho Lopes (marcosclopes@gmail.com ) é goiano, paga impostos e cursa o mestrado de Filosofia da UFG.