Sarma: um amontoado de coisas sem harmonia

Filosofia(s)

Destaques:

A Ciência como MIto e (o Cinema)

clique e confira...

A REALidade é a moeda?!!clique e confira ...

O erro de Orwell e a verdade do Big Brother

 

 

 

 

“Quando o ator se torna acessório da cena, não é raro que, em decorrência, os próprios acessórios desempenhem o papel de atores” Walter Benjamim

 

Poucos anos após o fim da Segunda Guerra Mundial o escritor George Orwell lançou 1984 , romance em que procura problematizar os resultados da Conferência de Teerã e da divisão do mundo em áreas de influência. Orwell percebe que o fascismo nâo havia sido totalmente derrotado, em verdade, ele se espalhava tomando novas formas e colocando no horizonte um terrível futuro: uma sociedade onde todos os indivíduos deveriam se subordinar à vontade do Estado. O controle seria exercido de maneira coercitiva, através de câmeras que vigiariam todos os passos dos habitantes. Os cidadãos deveriam prestar devoção total ao Grande Irmão, o ditador fascista que “tudo vê” e “tudo controla”, garantindo a ordem e a paz. As contradições seriam superadas em favor da verdade do Estado: o ministério da paz promoveria a guerra, o ministério do amor poderia matar ou torturar pessoas perigosas, e, finalmente, o Ministério da Verdade “formaria” a opinião pública através de mentiras.

 

È comum fazer uma vinculação entre o reallity show Big Brother e o Grande Irmão de Orwell: o programa mostraria que a paranóia de Orwell se tornou realidade, câmeras hoje vigiam todos os passos das pessoas, que são julgadas e, quando consideradas “culpadas”, eliminadas no “paredão” (a linguagem mesma lembra o fascismo, por exemplo, com o termo “paredão” ). Apesar de ser verdadeira a vinculação entre o formato do programa e a idéia de Orwell de um Grande Irmão que tudo controlaria, não se pode levar muito longe as semelhanças. Isso acontece porque Orwell denunciava a perca da privacidade como um grande crime e hoje o que vemos é o contrário: os participantes não estão lá para serem observados (como numa espécie de voyerismo ), pelo contrário, estão se exibindo, querem aparecer. A nota de denúncia de Orwell parece ter perdido o sentido. Só parece.

O problema em verdade se agravou. O fascismo de consumo tomou forma impessoal: a publicidade tornou comum um interesse particular, através da mitificação de astros do cinema, da música, da televisão, etc. Como explica o historiador Eric Hobsbawn: “ Da década de 1960 em diante, as imagens que acompanhavam os seres humanos do mundo ocidental, do nascimento a morte, passaram a ser as que anunciavam ou encarnavam o consumo, ou as dedicadas ao entretenimento comercial de massa. Os sons que acompanhavam a vida urbana, dentro e fora de casa, eram os da música pop comercial. A s palavras que dominavam as sociedades de consumo ocidentais não eram mais as dos livros santos, quanto mais de escritores seculares, mas as marcas de produtos ou do que se podia comprar. Eram estampadas em camisetas, pregadas em outras roupas como amuletos por meio dos quais o usuário adquiria o mérito espiritual do estilo de vida (geralmente juvenil ) que esses nomes simbolizavam e prometiam. As imagens que se tornaram ícones de tais sociedades eram as das diversões e consumo de massa: astros e latas.” A vida privada foi invadida pela necessidade coercitiva, colocada pelo mercado, de enquadrar-se em um padrão preestabelecido pelo mercado. Os programas de rádio, a televisão, o cinema, enfim, os meios de comunicação de massa, não divulgavam apenas produtos, mas, com eles, um novo modo de vida: as exigências sempre renovadas da propaganda colocam sempre o homem em movimento, tentando se enquadrar e se mostrar “antenado” ...em verdade, esse homem-massa é tragado pela publicidade e faz o que se faz, pensa o que se pensa, veste o que se veste, etc..sente uma angústia constante e a necessidade de ser aceito como mais um: quer ser como todo mundo, quer ser igual e, por isso, não é ninguém específico (como bem disse Jose Ortega y Gasset em 1932, a perfeita sociedade de homens-massa é fascista, totalitária, escrava do que chamam opinião pública ).

A sociedade passou a ser dominada por imagens (e por legendas, que determinam como se deve ver) que se multiplicam e se naturalizam. Cenas de violência, que a pouco chocavam, tornam-se banais. Atitudes que eram tomadas por imorais tornam-se triviais, ou pelo contrário: cria-se um falso moralismo universalizado que reeditam uma caça as bruxas, como na Idade Média. È a Aldeia Global, da pluralidade, da multiplicidade imposta: as drag-queens não podem ser barradas na mesquita judaica, assim como os mulçulmanos devem ter o seu direito assegurado à coca-loca (pior para eles se não gostarem do refrigerante ).

(O paradigma da inclusão a qualquer custo e de qualquer forma deve ser melhor observado: é ele que ronda a porta quando se pensa no atual quadro da educação no Brasil. Isso, tanto quando se pensa no sistema de cotas, como quando se observa a falta de estrutura disciplinar e pedagógica para transformar a quantidade em qualidade ).

A inversão tornou-se perversa: a vida privada tomou o lugar da vida pública, ou melhor, o campo de distinção de ambas se perdeu. A revista que vende mais é sobre fofoca de vida de artista ( e vende mais quando o artista esta com câncer do que quando ele está bem). A emoção da formula 1 esta nos acidentes e a dos rodeios no tombo dos peões. Os ídolos são colocados no altar, O altar de hoje em dia parecem ser as vitrines. Uma vez no altar, o público quer ver face humana do seu astro exposta: querem vê-lo chorar, sorrir, vê-lo sofrer e alegrar-se, mais que tudo, quer vê-lo morrer. O ídolo que morre jovem ganha o caráter da eternidade, da eterna juventude. Nunca irão envelhecer, seus erros serão perdoados em favor de uma suposta intensidade no seu “estilo de vida”. Essa intensidade é a mesma que pede que o consumidor compre tudo agora (na propaganda de cartão de crédito): já que a vida é uma só.

Hoje entre uma novela e outra o público assiste o jornal. A novela imita o cotidiano das pessoas e muitas vezes se incorpora a ele. Para muitos, as personagens são como conhecidos sobre os quais se podem fofocar livremente. No entanto, o público se cansou de ver ficção: quer ver realidade. Os reallity shows atendem a essa ânsia: seria a “novela da vida real”. O público pode agora se sentar contente na frente da TV e ver a vida passar. Não vive a própria vida, mas se projetam na vida de outros.

Se o privado de torna público o que seria público, naturalmente, tende também a tornar-se privado: a escola é do diretor, a prefeitura do prefeito, o país do presidente, etc. As pessoas em geral não dão mais importância a questões públicas, a política, a cidadania, etc. A novela se torna mais interessante que o jornal e até mais “real”: as pessoas não sabem mais julgar o que é e o que não é importante. Esse ano, o que vai ser lembrado: os 40 anos da Rede Globo ou o mesmo aniversário do Ato Intituicional número 2, que oficializou a Ditadura no país ?

Diversos resultados perversos advêm dessa inversão entre público e privado. Um deles é que numa época dominada por mitos e heróis a História é apagada, não existe e, quando aparece, é como ciclo que celebra e retoma os feitos desses “seres sagrados”. Orwell estava errado em seu 1984 : as pessoas, em geral, não vêem com terror a perca de sua privacidade, em verdade, consideram isso uma espécie de reconhecimento de sua existência. Estranho paradoxo: o virtual se torna real e o real... o real se torna chato. (gostosa é cerveja na propaganda, a mulher da propaganda, bom é o carro da propaganda... e o menino de rua mata uma pessoa por necessidade, quer roubar um tênis, precisa de uma “imagem” pra viver... rouba uma imagem ).

 

Marcos Carvalho Lopes ( marcosclopes@gmail.com ) é professor de Filosofia.

 

Texto publicado no jornal Folha do Sudoeste de 24 a 30/03/2005

 

O que diz sarma? | O que tem nesse site | Contato | ©2005