Filosofia
Harmonia, Cosmos, Platão, Leibniz
Por Marcos Carvalho Lopes
1 – Introdução: Apresentação do problema
No início dos "Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano", Leibniz anuncia pela boca de Teófilo um sistema que alia "Platão com Demócrito, Aristóteles com Descartes, os escolásticos como os modernos a teologia e a moral com a razão ", tomando , "o que há de melhor de todos os lados e que depois vai mais longe do que se tem ido até hoje"( Leibniz, G. Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano. Trad. Luiz Baraúna. In: Os pensadores, Vol. Newton/ Leibniz, Abril Cultural, São Paulo, São Paulo, 1974. Pág. 124. ) . Esse sistema que busca conciliar a tradição e expandir seu questionamento serio o do próprio Leibniz que se autodenomina o "pensador da harmonia pré-estabelecida". Tal harmonia anterior o leva as idéias inatas, assim como, a explicação da substância monadológica o "aproxima" dos atomistas gregos.
Pretendemos nesse trabalho olhar mais de perto a relação entre Platão e Leibniz e como nesses dois pensadores aparece a idéia de uma harmonia universal, de uma ordem de todas as coisas.
Primeiramente tentaremos uma aproximação da idéia de universo ordenado a partir da noção grega de kósmos, a seguir, tentaremos elucidar como tal harmonia aparece em Platão, então nos atentaremos para a leitura que Leibniz faz de Platão a partir do " Discurso da Metafísica" e só com isso poderemos chegar a algumas conclusões (mesmo que não "totalizantes" ).
2 – O kosmos
O termo " kosmos" tinha em grego um verbo aparentado, o que não ocorre em português, "kosméo" que designava: colocar em ordem, arranjar, arrumar. Essa designação se refere tanto ao comandante que dispõe homens e cavalos para a batalha, como para a cozinheira que separa ingredientes para preparar uma refeição. Tal ordenação tem também um caráter estético que sobrevive no moderno termo cosmético. Como se sabe, para os gregos o sentido moral estava unido ao sentido estético, então tal ordem apresenta também um valor ético. O termo "kosmos"era usado com aplicações morais, militares, civis e domésticas ou arquitetónicas (Vlastos, Gregory. Os gregos descobrem o kósmos in: O universo de Platão. Trad. M. Coroa. Unb, Brasília, 1997. Pág.11. ). Segundo Vernant a passagem dessa visão de vários "kósmos" para a tentativa de uma unificação e busca de uma ordem perceptível e possível de ser assimilada constitui a mudança decisiva que inicia a filosofia. (Vernant, J. P. Cosmogonias e Mitos de Soberania. In: As origens do Pensamento grego. ). O universo passa a ser apresentado como submetido a uma lei, "um cosmos que se organiza impondo a todas as suas partes uma mesma ordem de isonomia feita de equilibrio, de reciprocidade, de simetria." Há, pois, uma evolução: (1) ordem, (2)ordem deste universo, (3) o universo como ordem, até a visão do homem como microcosmo ( Demócrito frag. 34 ).
Os pitagóricos já tinham de fato uma teoria do kósmos , esse podia ser reduzido a proporções matemáticas ( harmonia ), visto que julgavam que seus princípios eram os princípios de todas as coisas (Aristóteles, Met. 985 b 25 ) buscavam restabelecer a harmonia da alma através da karthásis ( purificação ) . Heráclito é o primeiro a identificar a ordem cósmica como lei ( nomos ) (Peters, F. E.. Termos filosóficos gregos – Um léxico histórico. Trad. Beatriz R. Barbosa. 2 a ed. Fundação C. Gulbenkian, Lisboa. Pág. 133. ), gerando um movimento que conduziu a noção de lei natural. Podemos encontrar, seguindo Vlastos, no sistema de Heráclito um lugar para a divindade : "Escreve ele "Só um, o único sábio, quer e não quer ser chamado ‘Zeus' "(B 32 ). Não quer porque é fogo disperso pelo universo em erupções e extinções. No entanto quer, pois esse mesmo fogo é de algum modo inteligência – "o pensamento que guia todas as coisas atravezde todas as coisas" (B41 ) – e, portanto, atribui ao Universo, embora em escala muito maior, o papel de dirigente supremo tradicionalmente dado a Zeus (sic )." (Vlastos, G. Obra Cit. Pág.24 ). Outros ( Anaxágoras e Diogenes de Apolônia ) penasaram realmente em uma divindade responsável pela ordem do mundo, e no outro extremo se poriam o materialismo dos atomistas para quem a ordenação seria atributo da própria matéria. Vlastos conclui que "pela primeira vez na história o homem alcançou a percepção de um Universo Racional que deixa que seu próprio destino seja determinado apenas pela phýsis – a sua e a do mundo." (Vlastos, G. Obr. Cit. Pág. 24 ).
3- A Harmonia em Platão
Para termos um direcionamento seguiremos Gregory Vlastos em sua exposição sobre o kósmos de Platão até onde nos parecer conveniente para o nosso presente tema.
Vlastos inicia sua exposição colocando as Leis de Platão como um estatuto contra a impiedade sem precedentes na Grécia Antiga. Suas medidas punitivas se dirigiriam, "primeiro e principalmente" aos que afirmam que os "constituintes originais do Universo são entidades materiais como terra, o ar, a água, o fogo, as quais ‘por natureza' e ‘por acaso' ou seja, coisas cuja existência não surgiu por um desígnio ou, como diz Platão, "por arte": coisas que existem por mera causualidade." Isso acontece porque para Platão era indispensável uma "mente ordenadora sobrenatural" este, nos oferece pois, uma cosmogonia teológica. Segundo Vlastos "o que Heráclito havia negado quando escreveu ‘este mundo, o mesmo para todos, nenhum homem ou deus o fez", Platão transforma no primeiro princípio da cosmogonia do Timeu ." (Vlastos, G. Obr. Cit. Pág. 26 ).
Essa divindade que ordena o kósmos é o demiurgós , o atífice que seria como que a razão personificada. Não seria ele tanto governador como filosófo, matemático, engenheiro e acima de tudo artista (Vlastos, G. Obra. Cit. Pág. 26 ). Segundo F. E. Peters ele não é onipotente fazendo o cosmos tão bom "quanto possível" e tendo que competir com os efeitos contrários da "necessidade" (amanke )" (Peters, F. E. Obra. Cit. Pág 49 ). O demiurgo se move então de acordo com uma necessidade de produzir beleza, de partilhar sua perfeição. Diferentemente dos deuses do Olimpo nele não há inveja: "ele tem bondade e na bondade não pode haver inveja de nada em tempo algum." (Platão Timeu 29 e )
O importante para nossa investigação estaria em ressaltar, seguindo Vlastos, que um argumento como "seria mais belo se as coisas fossem dessa ou daquela maneira", que para nós pareceria insatisfatório, assim como para os physiologoi, é justamente o que Platão nos pede.
Porém, apesar de reconhecer o poder sobrenatural do Universo, Platão sustenta que tal não se dá de forma contrária a uma certa ordem, ou seja, existe uma regularidade na Natureza que não pode ser quebrada, além de que ele nunca propôs a extinção do culto aos deuses do estado a instituição do "culto a alma do mundo ou demiurgo do Timeu".( Conford, F. W. Principium Sapientae – as origens do pensamento filosófico grego. Trad. Maria dos Santos, Gulbenkian; Lisboa. )
É importante destacar que a filosofia de Platão, como dito por Alain, não é outra coisa senão crítica de si mesma. Com isso seus frutos estão escondidos e seu pensar não pode ser abarcado, por isso nos detemos apenas em levantar os pontos pertinentes a nossa investigação.
4- Platão no Discurso da Metafísica de Leibniz
No parágrafo vigésimo do Discurso da Metafísica aparece o título "Notável passagem de Sócrates, no Fédon, de Platão, contra os filósofos demasiado materiais" nele se cita uma longa passagem do Fédon ( 97 c-99d ) a qual Leibniz justifica como conveniente por ir "maravilhosamente de acordo com os meus sentimentos a esse respeito e que parece feita de propósito contra os nossos filósofos demasiado materiais.("Nessa passagem do Fédon Sócrates descreve sua "primeira navegação'" em volta do problema da física: "a causa da geração e corrupção de todas as coisas"(Fédon 96 a ). Descreve assim o contato do jovem Sócrates com as teorias materialistas e sua decepção para com estas. Dizia então Sócrates que havia ouvido falar da filosofia de Anaxágoras como tendo o espírito como ordenador de todas as coisas, se assim fosse:
"a inteligência ou o espírito deve ter odernado tudo e tudo feito da melhor forma. Desse modo, se alguém desejar encontrar a causa de cada coisa, segundo a qual nasce, perece ou existe, deve encontrar, a respeito, qual é a melhor maneira seja de ela existir, seja de sofrer ou produzir qualquer ação. E pareceu-me ainda que a única coisa que o homem deve procurar é aquilo que é melhor e mais perfeito, porque desde que ele tenha encontrado o que é pior, visto que são objetos da mesma ciência (Fédon 97 c-d)."
Essa última frase é traduzida diferentemente no texto de Leibniz, e parece-me com maior sapiência, desse modo "E por fim, depois de ter mostrado o conveniente a cada coisa em particular, me mostraria o melhor em geral."
Sócrates esperava que Anaxágoras se pusesse a cata desse melhor explicando o ser desse modo porém " a medida que avançava e ia estudando mais e mais, notava que esse homem não fazia nenhum uso do espírito e nem lhe atribuía papel algum como causa na ordem do universo, indo procurar tal causualidade no éter, no ar, na água, em muitas coisas absurdas." (Fédon 98c) Qualquer explicação deste tipo foge do melhor: Sócrates está ali para cumprir sua pena, tomar a cicuta, mesmo tendo oportunidade de fugir pois, se os atenienses acharam que aquilo era o melhor, contudo se tomasse outra concepção do melhor poderia ter fugido, então: " dar o nome de causa a tais coisas seria ridículo. Que se diga que sem ossos, sem músculos e outras coisas eu não poderia fazer o que me parece, isso é certo. Mas dizer que é por causa disso que realizo as minhas ações e não pela escolha que faço do melhor e com inteligência- essa é uma afirmação absurda." (Fédon 99 a-b). É imprescindível para Sócrates distinguir duas coisas uma que é a verdadeira causa e o que sem o qual a causa nunca seria causa (Fédon 99b). É preciso distinguir a causa primeira das causas conseqüentes. A causa primeira é o bem a causas conseqüentes pode-se dizer são contingentes.
Segundo Peters, Platão chama ao kosmos um "deus visível" ( horatos theos ) devido ao papel ético que tal ordenação em sua teoria da harmonia-katharsis (Peters, F. E. Obr. Cit. Pág.133). O universo visível ( kosmos aisthetos ) é uma imagem ( eikon ) do universo inteligível ( kosmos noetós ). A alma teria um pé em cada lado o mundo do Ser eterno e o das coisa sensíveis o do vir-a-ser (Vlastos, G. Obr. Cit. Pág. 30). Desta forma ao criar a alma " o Demiurgo faz algo que terá grandes conseqüências físicas: o movimento autogerado da Alma do Mundo e da alma das estrelas será responsável por todos os movimentos nos céus: todo psicocinese."
No parágrafo 26 Leibniz retorna a Platão. Esse tem por título " Temos todas as idéias em nos. Acerca da reminiscência em Platão." Nele Leibniz defende sua idéia de que nada penetra o espírito vindo do exterior "como se nossa alma recebesse algumas espécies mensageiras e tivesse portas e janelas." ( Leibniz, G. Discurso de Metafísica. Trad. Marilena Chaúi. Col. Os Pensadores, Vol Newton/Leibniz, Abril Cultural, São Paulo, 1874. Pág.100).Analisa então a teoria da reminiscência em Platão considerando que essa tem bastante fundamento, desde que, expurgado o erro da preexistência " e caso não se pense que a alma já deva ter pensado com distinção o que agora pensa. Cita o exemplo do escravo a quem Sócrates faz "aflorar" conhecimentos de geometria no Ménom. Assim Leibniz considera como provado que " nossa alma sabe virtualmente todas as coisas e apenas requer animadversiones para conhecer as verdades, e por conseqüência possui, pelo menos as idéias de que dependem estas verdades." (Idem ).
Conclusão
Em Leibniz a harmonia se apresenta também como uma melhor ordenação do mundo sensível. A matéria contém em sí uma visão de todo o universo, a substância monadológica reflete toda ordem do mundo de forma que, o devir representa a melhor ordem. Não é necessário como em Platão a divisão entre mundo sensível e mundo inteligível.
Deus é o princípio ordenador que tudo fez de acordo com uma lei de bondade. Todas as ações de Deus se escorram nessa lei da qual ele próprio não pode fugir. Deus não pode fazer nada fora de ordem buscando sempre o mais simples em hipóteses e o mais rico em fenômenos ( Leibniz, G. Discurso de Metafísica. Trad. Marilena Chaúi. Col. Os Pensadores, Vol Newton/Leibniz, Abril Cultural, São Paulo, 1874. Pág.81).
Tal ordenação advém da questão que move a filosofia de Leibniz: "por que há algo e não simplesmente o nada?". Por que há este mundo e não outro qualquer ou mesmo nenhum? É necessária uma razão que responda tal pergunta.
Quando escolhemos preferimos uma coisa e não outra, nesse preferir, nesse se direcionar para, já esta uma marca do melhor. Todo universo se move de acordo com o melhor: essa é sua liberdade, assim como, sua necessidade.
O que não é escolhido é posto de fora é um possível não mais possível. Por isso a ordem estabelece "um" mundo possível e esse deve necessariamente ser o melhor. O melhor dos mundos teria o máximo de possibilidades e, com isso, o máximo de realidade.
Leibniz sublinha que a necessidade que move Deus na ordenação do mundo não é metafísica/lógica e sim moral. Deus tem que escolher o melhor por sua bondade, por querer o bem. Se algo existe é porque é o melhor, porque é de acordo com o bem.
O otimismo de Leibniz tem um nível ontológico que tem suas raízes no início da filosofia e na possibilidade de apreender o mundo como pensável.
O bem como agathón é o que deve ser contemplado pelo rei-filosófo em Platão. Mesmo quando Aristóteles nega esse ideal platônico afirma a eudaimonia como o bem a que a que todas as coisas tendem.
Com isso podemos observar que entre o kósmos de Platão e a harmonia preestabelecida de Leibniz existe uma aproximação, e, ainda mais uma radicalização (quanto a afirmação duma ordem ) proporcionada pela dúvida da questão: "por que há algo e não antes o nada?". Em Leibniz a ordenação atinge seu máximo, ainda que com isso, perca sua força.
Goiânia, 1999
Marcos Carvalho Lopes é graduado e faz mestrado em Filosofia na UFG, esse texto é um trabalho de graduação, com todos os erros de um trabalho assim...


