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Liberdade e Mito: a filosofia e a tarefa de esclarecer conceitos

Marcos Carvalho Lopes (02/2005)

“Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!”

Trecho do poema Cântigo Negro de José Régio

 

Bush jurando defender a Democracia no mundo

 

Eleito para o seu segundo mandato, o presidente norte-americano George W. Bush prometeu ao mundo em seu discurso de posse mais do mesmo: os EUA continuarão sendo os guardiões da democracia no mundo. Para enfatizar essa intenção (ou por falta do que dizer ) em um discurso de 21 minutos Bush utilizou 27 vezes a palavra “freedom” e 15 vezes a palavra “liberty” ambas tendo o sentido de liberdade. A redundância de Bush reafirma o velho discurso americano de guardião da democracia, de defensor da liberdade conjugado agora com o compromisso de combater o terrorismo onde quer que ele se esconda .

O problema para o mundo é saber: que tipo de liberdade o presidente George W. Bush promete para o mundo? De que conceito de liberdade ele está falando? O que significa terrorismo para Bush e quem são os terroristas que ele quer combater? O problema não esta em os norte-americanos se colocarem como “guardiões da democracia” no mundo: o problema é saber o que eles chamam de democracia.

O discurso de Bush não é suficientemente claro e/ou oculta elementos importantes, sem os quais é impossível ter certeza de seus objetivos. Por isso mesmo, é necessário questionar os discursos, buscar esclarecer seus pontos obscuros, tentar compreender o contexto em que são enunciados e como foram utilizadas as palavras que o fundamentaram.

Essa busca por clareza, por uma definição mais precisa de termos como liberdade, justiça, democracia, etc., esteve na origem do pensamento filosófico. Quando Sócrates no século IV a.C., de forma impertinente e determinada, questionava as autoridades de Atenas sobre esses conceitos, quando interpelava as pessoas no mercado perguntando sobre esses temas, ainda, quando se portava de modo não usual, sendo desleixado com seus cabelos, com suas roupas, o que ele propunha era um questionamento mais sério e radical dos valores que fundamentavam sua sociedade. “Logicamente”, as pessoas não gostavam da postura de Sócrates: ele era chato, era louco, era um contestador, alguém que ameaçava os valores estabelecidos, etc, Por conta desse tipo de raciocínio os atenienses decidiram “democraticamente” que ele deveria morrer.

A democracia ateniense não tinha em suas raízes a idéia de liberdade de pensamento. Em verdade, quem questiona os mitos da civilização em que vive normalmente é colocado como um louco, alguém insano. Por exemplo, no Renascimento Galileu quase foi condenado a fogueira por afirmar que a Terra não era o centro do universo. Galileu se retratou e foi perdoado (o que não aconteceu com Giordano Bruno, na mesma época)

Provavelmente hoje, a figura que mais se assemelha a Sócrates seja a do filósofo Noam Chomsky. Um norte-americano que não aceita tudo o que lhe dizem, que questiona a liberdade que seu país há muito tempo promete ao mundo. Por exemplo, para Chomsky a “democracia de estilo norte-americano” é “um sistema político com eleições regulares, mas sem nenhum questionamento sério da dominação empresarial, não há dúvida de que os estrategistas políticos norte-americanos anseiam por vê-la estabelecida no mundo inteiro”. Chomsky lembra que muitas vezes os EUA se aliaram ou apoiaram regimes não democráticos tendo em vista interesses econômicos.

Em verdade, a miragem do Destino Manifesto, do país da liberdade (e das oportunidades ) esteve por traz da marcha para o Oeste e da oposição cowboy x índio, que mais tarde, justificando a expansão dos EUA pelo mundo tornou-se o conflito entre americanos (capitalismo) e soviéticos (socialismo )...nos anos loucos da corrida espacial (e principalmente no período do delírio de Reagan do Projeto Guerra nas Estrelas) na literatura e no cinema ensaiou-se um conflito entre os americanos e alienígenas. Com o fim da Guerra Fria a desculpa para o expansionismo americano não ficou mais tão clara, no entanto, hoje o terrorismo serve de fundamento para que os americanos possam, como guardiões da democracia, atacar qualquer país que considerem uma ameaça.

 

A liberdade que promete Bush nada tem haver com a liberdade de pensamento defendida por Sócrates e Chomsky: em verdade, por trás de uma fachada de luta por Direitos Humanos, o que o governo norte-americano quer é preservar interesses econômicos.

 

Para buscarmos a verdadeira democracia e liberdade, devemos participar, questionar e buscar esclarecer as contradições e a falta de clareza dos discursos oficiais (e de qualquer discurso). Foi por esse motivo que a filosofia surgiu na Grécia Antiga e é para isso que ela pode nos servir: na tarefa de esclarecer conceitos, de questionar fundamentos. Só assim, poderemos compreender os valores que fundamentam os nossos mitos e que movem nosso mundo e, a partir desse conhecimento, escolher de maneira consciente os caminhos a serem tomados.

O caminho crítico da filosofia talvez não nos garanta liberdade, no entanto, pode nos ajudar a escolher para onde não ir, tomando as palavras do poeta português José Régio em seu famoso poema Cântico Negro: “Não sei por onde vou,/Não sei para onde vou/Sei que não vou por aí!”.

Sobre o autor: Marcos Carvalho Lopes é professor de filosofia no Colégio Estadual Nestório Ribeiro (email: marcosclopes@gmail.com site: http://www.sarma.cjb.net )

 

 

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