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Notas acerca do Humanitismo de Quincas Borba nas Memórias Póstumas de Brás Cubas

Marcos Carvalho Lopes

Introdução

No capítulo LIX de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de nome "Um encontro", aparece um personagem que será título de um outro livro de Machado de Assis: Quincas Borba. Quem é esse Quincas Borba? Assim o apresenta o narrador de Quincas Borba (que, por narrar em terceira pessoa talvez mereça crédito maior do que o narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas, que narra na "pessoa morta" com a "pena da galhofa e a tinta da melancolia" ): "Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas, é aquele mesmo náufrago de existência, que alí aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia."
Mais do que a personagem de Quincas Borba, o que servira de elo entre as Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba é o pensamento desse filósofo, seu Humanitismo, que grande efeito provoca no espírito de Brás Cubas, mas que para Rubião demandará um difícil aprendizado, esse caminho em direção a "sofia", ou melhor à loucura.
O Humanitismo, o sistema filosófico que "retifica o espírito, suprime a dor, assegura a felicidade, e enche de imensa glória o nosso país", servirá para Machado, em seu ceticismo, colocar em cheque de uma só vez todos os sistemas metafísicos, que tudo buscam apreender. Da mesmo forma, leva Machado a falar sobre um tema que lhe era querido: a loucura.
A filosofia positivista, da Razão com "R" maiúsculo (reluzente em seu formol ), da racionalidade total (tudo pode ser conhecido ) é colocada como caminho/fruto de um grão de insanidade. Razão e loucura são contrapostas e alinhadas. O bruxo sorri em sua ironia, "Tudo é Humanitas", afinal Mestre Pangloss não era tão louco como o pintara Voltaire.
Nesse trabalho buscaremos olhar mais de perto como essa "filosofia" é apresentada no Memórias Póstumas de Brás Cubas, como não nós propomos (visto o tempo que temos para a realização deste ) fazer um trabalho extenso teremos senão notas sobre o Humanitismo de Quincas e um olhar panorâmico da influência dos ensinamentos desse filósofo no "espírito" de Brás Cubas. A incompletude dessa análise já pode ser reconhecida como traço em seu anuncio. Em verdade vos digo, que esse trabalho merece em sua essência o título de "Notas", visto que, não constitui uma analise totalizadora (em nenhum sentido ) e muito menos total ( por isso mesmo essa "Introdução" tanto se assemelha a uma apologia a compilação ). Amém.


¿Crítica social no (re-)encontro entre Quincas Borba e Brás Cubas?

 

No capítulo LIX das Memórias Póstumas de Brás Cubas Brás reencontra um antigo companheiro de colégio: "Imaginem um homem de 38 a 40 anos, alto, magro e pálido. As roupas, salvo o feitio, parecem ter escapado ao cativeiro da Babilônia; o chapéu era contemporâneo do de Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes – ou, literalmente, os ossos da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho; o pelo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos botões restavam três. As calças de brim pardo, tinham duas fortes joelheiras, enquanto as bainhas eram roídas pelo tacão de um botim sem misericórdia nem graxa. Ao pescoço flutuavam as pontas de uma gravata de duas cores, ambas desmaiadas, apertando um colarinho de oito dias. Creio que trazia também um colête, um colête de seda escura, roto e a espaços desabotoado." ¿Quem era esse mendicante senão um antigo companheiro de colégio de Brás Cubas, Quincas Borba. O contraste entre a figura rica e abastada que Brás guardava na memória e "aquele maltrapilho avilhentado". Entretanto no enigma do olhar Machado desvela algo da essência daquela figura: "os olhos tinham o resto da expressão de outro tempo, e o sorriso não perdera certo ar de escarninho, que lhe era peculiar."
O menino que antes figurava como rei nas festas do colégio, agora mendigava, contudo, parecia resignado: "Com certeza, impassível. Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade filosófica.". Esse trecho é nos importante , aja vista que, se Quincas parecia "até contente" em sua mendicância não possuía ainda a "conformidade filosófica", não tinha adquirido a "certeza" da Humanitas.
Brás acaba por dar a Quincas uma nota de 5 mil-réis – a menos limpa – com o que esse, Quincas, se entusiasma. Brás estranha aquela "expansão" sentindo um "misto de nojo e lástima", Quincas percebe tal e se desculpa pela "alegria de pobre". Brás não perde a oportunidade de dar-lhe uma "lição de moral":

"- Pois esta em suas mãos ver outras muitas – disse eu.
- Sim – acudiu ele, dando um bote em mim.
- Trabalhando - concluí eu.
Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão triste, e preparei-me para sair.
- Não vá sem que eu lhe ensine a minha filosofia da miséria – disse ele escarranchando-se diante de mim"

Assim termina o capítulo LIX de Memórias Póstumas. Que será pois essa "filosofia da miséria" que o mendigo Quincas se propõe a ensinar para Brás Cubas? Compara-lhes a vestimentas, pergunta a Brás se este está casado,... abraçam-se em despedida. Onde está a filosofia? Quincas no abraço roubou o relógio de Brás. Eis a "filosofia da miséria" apresentada no Capítulo LX, "O abraço".
O capítulo seguinte chama-se "O projeto", nele Brás acaba por voltar ao passeio Público em busca de Quincas. Não o encontra porém: "Não era impossível encontrá-lo noutra ocasião; prometi a mim mesmo lá voltar. A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchia-me o coração; eu começava a sentir um bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim próprio...Nisto caía a noite; fui ter com Virgília."
O capítulo LXII chama-se "O travesseiro", Brás compara Virgília ao travesseiro de sua alma, cinco minutos com ela e já havia esquecido completamente de Quincas.

***

O ócio de Quincas enquanto pobre faziam-no ser reprovado aos olhos de Brás, era preciso o regenerar trazendo-o para o trabalho. O ócio de Quincas fê-lo conceber a "filosofia da miséria" que nem é uma "filosofia", nem é uma teoria. Em verdade era "o jeito" necessário para sobreviver sem trabalho.
Brás sentia-se em condições de ensinar ao "fracassado", porque miserável Quincas, a necessidade de trabalhar, de tornar sua existência digna. A lição fica no prelo "o trabalho dignifica o homem".
Mas o ócio de Quincas somado a uma herança de algum dos seus parentes de Minas traduzia-se filosofia. É verdade que desde Aristóteles se afirma a filosofia filha do ócio ( e por isso mesmo produto de uma elite ). Naturalmente "a abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade", e fizera dos suas abjeções cômicas e tristes a mais profunda filosofia: o Humanitismo (Não devemos esquecer que Brás também anunciava suas "teorias" ("a contemplação do nariz constitui o equilíbrio das sociedades, a lei da equivalência das janelas, a filosofia dos epitáfios. ..), no entanto, não podemos deixar de lembrar também que a obra é escrita por um "defunto autor" que com a tão falada "pena da galhofa e tinta da melancolia" descreve suas desventuras .).
No capítulo XCI "Uma carta extraordinária" está a "virada" na avaliação de Quincas por parte de Brás. Esse Quincas que precisava ser regenerado algumas páginas a frente se tornará o Mestre Pangloss de Brás Cubas. Por meio de uma carta Quincas anuncia a Brás que não mais é (se veste como ) um mendigo, devolve a Brás o relógio que havia lhe tomado emprestado ( um relógio bem melhor que o anterior ) e anuncia que a descoberta de "um novo sistema de filosofia que não só descreve a origem e a consumação das coisas", mas "retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, e enche de imensa glória o nosso país. Chamo-lhe Humanitismo, de Humanitas, princípio das coisas."
O alienado torna-se alienista num passe de mágica, "a restituição do relógio excluía toda idéia de burla; a lucidez, a serenidade, a convicção – um pouco jactanciosa, é certo – pareceriam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum de seus parentes de Minas, e a abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; há coisas que não se podem reaver integralmente; mas enfim a regeneração não era impossível. Guardei a carta e o relógio, e esperei a filosofia.".

Relações entre Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis e o Cândido de Voltaire - Notas

"Os metafísicos de Tlön não buscam a verdade nem seguir a verossimilhança: buscam o assombro. Julgam que a metafísica é um ramo de literatura fantástica. Sabem que um sistema não é outra coisa que a subordinação de todos os aspectos do universo a um dêles. Até a frase ‘todos os aspectos’ é inaceitável porque supõe a impossível adição do instante presente e dos pretéritos."
Jorge Luiz Borges, Ficções


No Cândido ou do Otimismo de Voltaire o personagem título é jogado como uma peteca de um lado para outro ao sabor das circunstâncias. O objetivo de Voltaire nesse romance é criticar a afirmação de Leibniz de que estamos no "melhor dos mundos possíveis". Leibniz conjectura essa idéia a partir de uma harmonia preestabelecida que regeria todo o universo, assim em cada mínima partícula, mônada, poderíamos encontrar esse princípio que rege todo o universo. Desvendando-o, como uma complicada formula matemática, teríamos a chave para a compreensão de todas as coisas.
Voltaire não se aprofunda na crítica a Leibniz, até porque na época a maioria de seus escritos não havia sido divulgada sendo que alguns de seus estudos não foram até publicados, mas se concentra na idéia de que esse é o melhor dos mundos possíveis, que existe uma ordem por trás de todas as coisas e acontecimentos e que esse encadeamento no final sempre proporciona o melhor resultado.
O Mestre Pangloss aparece já no início da obra Cândido, lecionava metafísico-teólogo-cosmolonigologia e provava por "a" mais "b" que sem causa não há efeito, e que "as coisas não podem ser de outra maneira, porque, sendo tudo feito para um fim, tudo existe necessariamente para o melhor dos fins. Observai que o nariz foi feito para o apoio dos óculos; e por isso temos óculos. As pernas são visivelmente instituídas para o uso de calções, e inventaram-se calções. (...) por conseguinte, aqueles que afirmam que está tudo muito bem disseram uma tolice; era preciso que dissessem que vai tudo da melhor forma." As circunstâncias o jogavam nos mais diversos contratempos e ele continuava a afirmar esse o melhor dos mundos, na parte final do livro aparece Martinho que contrabalança a influência de Pangloss com seu pessimismo. Assim o livro termina com a "equilibração" de Cândido e uma lição, em quaisquer que sejam as circunstâncias "é preciso cultivar nosso jardim".
Se o filósofo Quincas pode ser "aparentado" de Pangloss a idéia de uma "equilibração" não ocorre em Memórias Póstumas. A mensagem de Voltaire, "é preciso cultivar nosso jardim", só pode ser vista nas Memórias Póstumas a partir do que o defunto-autor deixou de fazer, "Não alcancei a celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. É claro que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão como o suor de meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e por conseguinte que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque; ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa desse capítulo de negativas: - Não tive filhos,, não transmiti a nenhuma criatura o legado da minha miséria."; nas Negativas de Brás no último capitulo do livro pode-se deduzir negativamente o preceito de Voltaire.

***

A dialética Otimismo/Pessimismo não é superada em Memórias Póstumas mas, em verdade, perpetua-se no debate de Quincas e Brás. O otimismo de Quincas Borba, seu positivismo, é bem conhecido. ¿Por que afirmamos Brás o Martinho da história? Porque contamos com um trecho do Prólogo da Quarta Edição em que Machado de Assis afirma "O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama "rabugens do pessimismo". Há na alma desse livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está longe de vir dos seus modelos." .
O enigma que fica é saber se Brás Cubas – o finado – é adepto do Humanitismo. O autor não mostra um distanciamento suficientemente grande para nos mostrar tal, já que no capítulo CXXXVIII "A um crítico" diz "em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente.", ou seja, quando narra seus diálogos com Quincas os revive. ¿Porém, verdadeiramente, em sua morte, seria um adepto do Humanitismo? Parece-me que não, mas vá fundamentar tal opinião...!
Enquanto no Cândido de Voltaire refuta-se o Otimismo de Leibniz jogando os personagens de um lado para outro do mundo, sofrendo desventuras nos mais variados lugares (o que alenta a possibilidade de enquadra-lo – o Cândido - como um romance de espaço em que o "melhor dos mundos possíveis" é mostrado), no Memórias Póstumas a viagem é outra, "De Brás Cubas se pode talvez dizer que viajou a roda da vida.", afirma Machado no referido Prólogo da Quarta Edição. Porém, como no Cândido os personagens de Memórias, dos romances machadianos em geral, são jogados pelas circunstâncias, não há uma mudança psicológica das personagens, seu caráter é mantido, o menino Brás é o espelho do homem, não se sabe, do defunto. O impulso inicial é que faz as bolas rolarem "e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma coisa que podemos chamar – a solidariedade do aborrecimento humano.", afirma Brás no Capítulo XLII, "Que escapou a Aristóteles".

***

No capítulo CXXXIX de Memórias Póstumas Brás dá-nos a explicação "De como não fui ministro d’estado", calando-se. No capítulo seguinte explica que a coisas que assim melhor se explicam. Descreve sua tristeza pelo malgrado e a explicação de Quincas do ocorrido segundo o Humanitismo. Explicações que Brás não quer ouvir, interrompe o filósofo "- Vá para o diabo com o teu Humanitismo – interrompi-o -; estou farto de filosofias que me não levam a coisa alguma.".
Estavam na sala de estudos de Brás, para este o mundo estava em desconcerto então não é que nós aparece Voltaire sorrindo: "estávamos na minha sala de estudos, uma bela sala que dava para o fundo da chácara, bons livros, objetos d’arte, um Voltaire entre eles, um Voltaire entre eles, um Voltaire de bronze, que nessa ocasião parecia acentuar o risinho de sarcasmo com que me olhava, o ladrão; cadeiras excelentes, fora o sol, um grande sol, que o Quincas Borba, não sei se por chalaça ou poesia, chamou um dos ministros da natureza; corria um vento fresco, o céu estava azul. De cada janela – eram três – pendia uma gaiola com pássaros, que childreavam em suas operas rústicas. Tudo parecia uma conspiração das coisas contra o homem: e, conquanto eu estivesse na minha sala, olhando para a minha chácara, sentado na minha cadeira, ouvindo os meus pássaros, ao pé dos meus livros, alumiado pelo meu sol, não chegava a curar-me das saudades daquela outra cadeira, que não era minha."
Enquanto para Brás o mundo parecia o pior dos possíveis, as coisas conspiravam contra ele, as circunstâncias, o céu, os pássaros, e principalmente a estátua de Voltaire com o seu sorriso. Já sabemos a viagem de Brás é interior, pela vida. No momento não quis saber do Humanitismo, mas tomava conta dele um ego-ísmo que poderíamos chamar liberal, se fossemos marxistas ou marxianos. Apesar de tantas coisas que eram dele, não tinha a posse do bem que tanto almejava. Esse fetiche malogrado provoca uma regressão no nosso Brás que chora o seu egocentrismo refutado. A relação entre a dignidade e a posse de bens que serviu para condenar e absolver Quincas volta a tona.

****

Lembremos que Quincas Borba morre afirmando a dor uma ilusão, e que Pangloss, o caluniado Pangloss, não era tão tolo como o supôs Voltaire

 

 

Conclusão

Esse trabalho fica incompleto, ou melhor inconcluso ( que é um jeito mais formal de dizer ).
Porém, contudo, entretanto, outrossim, consideramos (eu e meu daimon ), que levando-se em conta o pequeno período de tempo em que foi escrito essas notas poderão ainda servir para uma analise mais consistente e menos retórica.
Se há um exagero na importância dada as relações entre o Cândido e Memórias Póstumas, tendo em vista que o Humanitismo de Quincas e o seu alvo de crítica é bem diverso que o alvo de Voltaire, tal se deve a falta de espaço-tempo para uma exposição mais detalhada. Reticências e reticências...
maneira que os outros desaparecem ainda mais em sua possibilidade de diferença e expressão. (...) O impessoal, que não é nada determinado mas que todos são, embora não como soma, prescreve o modo de ser da cotidianidade"

 

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