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George Orwell e a “Revolução”: um conto de fadas moderno
Por Marcos Carvalho Lopes
“Doze vozes gritavam, cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quando ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.” Revolução dos Bichos , George Orwell
Os marxistas pregavam a tomada do poder pela classe trabalhadora: o proletariado deveria ser responsável pela superação da sociedade burguesa, com o fim da propriedade privada dos meios de produção, rejeição do mercado e dos “valores” do capital(ismo). A revolução socialista ocorreria, segundo Marx, em sociedades industrializadas, onde o acirramento da luta de classes iria “explodir” de maneira revolucionária. Os proletários ao tomarem o poder deveriam implementar uma ditadura, afim de evitar uma contra-revolução por parte dos burgueses. A fase de ditadura do proletariado seria o socialismo, que, aos poucos seria deixado de lado: dispensar-se-ia pouco a pouco o Estado burguês e seus mecanismos de repressão, teria fim a luta de classes e chegaríamos ao comunismo (o Paraíso dos marxistas ).
Marx foi traído pela história em 1917 quando a Rússia, ainda semifeudal, tornou-se o primeiro país socialista. Tendo que enfrentar a oposição dos países capitalistas a “ditadura do proletariado” acabou na prática bastante centralizada. Aboliu-se a propriedade privada dos meios de produção, foi feita reforma agrária, nacionalização de bancos e fábricas, planificação da economia, etc. Com a morte de Lênin em 1924 a então União Soviética se viu “dividida” entre duas opções: manter o isolacionismo, a idéia de “socialismo em um só país”, defendida por Joseph Stálin e a opção de Leon Trotsky, de expandir a revolução, tornando-a mundial. Stálin chegou ao poder, expulsou Trotsky do país (e depois ordenou seu assassinato, no México em 1940).
Stálin, em nome da “revolução”, fortaleceu o Estado, tornando-o onipotente: a idéia de um partido único degenerou-se em totalitarismo. A censura se efetiva, políticos dissidentes são perseguidos, eliminados, mantidos em campos de concentração ou hospitais psiquiátricos. O poder cada vez mais se centraliza e instaura-se o culto à personalidade de Stálin (nos moldes fascistas). Seu governo interfere em todas as formas de cultura apontando sempre a “revolução” como fim último.
Nada disso tinha sido previsto por Marx (Ele mesmo não era marxista, porque ele era Marx. Já os marxistas vão ter sempre a desculpa de que: com Trotsky tudo seria diferente. Fidel e Mão talvez sirvam para desmentir essa suposição. Mas fica o se... ). Com a morte de Stálin em 1956 os crimes do socialismo real são assumidos e começa-se um processo de desestalinização: antes de acabar com o Estado burguês era necessário acabar com o Estado totalitário do socialismo real. Ao preço de fome e terror, o socialismo real transformara a União Soviética em uma potência mundial que foi a grande responsável pela derrota de Hitler.
O conto da carochinha da “Revolução” foi retratado por George Orwell no livro A Revolução dos Bichos : numa fazenda os bichos (proletariado) revoltam-se contra a exploração e expulsam os homens (burgueses). A promessa de igualdade entre os animais é substituída pela instauração de uma aristocracia dos porcos, que por “serem os mais inteligentes” devem comandar a revolução (para evitar a volta do homem (capitalismo)). Os porcos brigam entre si pelo poder (o porco Bola-de-neve representaria Trotsky enquanto Napoleão, Stálin), o governo degenera-se em Ditadura e os porcos acabam por explorar os outros animais. No fim, porcos e homens se identificam e nada muda. O homem gosta de seu chiqueiro.


