Sarma: um amontoado de coisas sem harmonia

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Filosofia

Por que fiz filosofia?

Marcos Carvalho Lopes

É comum, quando alguém fica sabendo que sou graduado em filosofia, perguntar: "Por que você fez filosofia?". Fico imaginando se fazem a mesma pergunta para alguém formado em Medicina ou em Direito... Talvez sim, mas dificilmente perguntariam a seguir (ou anteriormente ) "O que é Medicina?", ou "O que é Direito?", como perguntam (sempre ) "O que é filosofia?" - é impressionante como essa palavra "filosofia" soa difícil nas bocas das pessoas que fazem essa questão, quando misturam seu significado com o de algumas ciências e respondem por si mesmos "Têm muito a ver com psicologia, né!??!", "É próximo de História, de Letras, etc."... Fico imaginando uma cartografia dos conteúdos: Geografia sendo próxima a História, fazendo fronteira ao Sul com Sociologia que se liga por um estreito ao Português que ainda mantêm relações diplomáticas com Matemática, que junto com a Química e a Física formam uma Aliança no Norte tentando conter a expansão da "potência do milênio" Biologia... É, mas o meu delírio tem fim rápido quando sei que com um decreto aboliram as fronteiras entre as disciplinas e agora o nome da moda é interdisciplinaridade ( ou seja, uma globalização das disciplinas ). Essa palavra "interdisciplinaridade" continua envolta em névoas (penso que com razão ).

A filosofia, como é comum dizer vem do Grécia e têm tradução fácil coma amizade à sabedoria. O saber aqui é visto em sua totalidade, por isso mesmo a filosofia não é uma ciência (por não ter um objeto de estudo ), não é uma disciplina, não se prende a uma definição. De-finir é por fim, a filosofia lança-se em relação a esse limite, ela mesma não põe fim mas busca esse limite, o questiona, o problematiza. Lembremos Sócrates que quando ficou sabendo que o Oráculo dizia ser ele o homem mais inteligente de Atenas, não encontrando em si mesmo nenhum saber, interpretou o oráculo afirmando "Só sei que nada sei". Sócrates não tinha certezas, verdades absolutas e quando dialogava com os que afirmavam possuir o saber (sofistas ) percebia que esses na verdade se prendiam a grandes ilusões, não sabendo de sua própria ignorância ficavam presos a um falso saber, retórico, de aparências. A sabedoria de Sócrates estaria na dúvida constante, na capacidade de estar sempre à procura da verdade, sendo amigo do saber e não dono dele. Por questionar os "saberes" vigentes Sócrates foi condenado a morte. A filosofia, pois, desde o seu nascimento busca a totalidade do saber, porém não é essa totalidade, está é tanto melhor quanto mais pergunta pelo fundamento e menos se propõe a construir "edifícios". Como disse Jaspers, nela as interrogações são mais importantes que as respostas.

¿Uma Interrogação?

Claro que a questão fundamental que pode levar alguém a fazer Filosofia é sobre o próprio ser, sobre sua própria vida...porém se a questão for somente essa, objetivamente é melhor fazer psicologia. A Filosofia pergunta pelo fundamental no ser sem objetificar esse ser, sem defini-lo...por isso diz-se a filosofia não tem objeto de estudo (como já disse ela "tenta" a totalidade). Minha primeira lembrança viva da palavra Filosofia advém de uma questão sem resposta. Gostava muito de História e tirava até notas boas nessa matéria quando no Ensino Fundamental. Quando fazia 7a Série fiquei sabendo que ia ocorrer um seminário sobre Estudos Socais, iam falar sobre o Cerrado, sobre História etc., etc. Como eu era Escoteiro nessa época achei interessante a idéia de conhecer algo sobre o Cerrado e fiz minha inscrição. A primeira palestra era a noite, uma mesa-redonda sobre Ciências Humanas. Do alto de meus 11 anos fiquei um pouco deslocado... o Seminário era para professores com professores da UFG vindos de Goiânia, da capital... eles me olhavam com cara desconfiada, ou "achavam uma gracinha" e depois perguntavam "por que eu não estava em casa?". Isso me deixava mais fechado, ainda mais concentrado no meu egocentrismo juvenil (quer dizer nem tão juvenil assim ). Ouvi os debates todos e as discussões sem entender quase nada... Mas, esse pouquinho que entendi me fez perceber um furo, aí levantei o dedo e perguntei algo como: "Não sei se posso nem se é importante, mas vocês falam de história e usam expressões como na verdade...em verdade...verdade...verdade...que é essa verdade que vocês tanto buscam e não conseguem definir?". Acho que estava abismado de ver os professores da UFG relativizarem tanto a história que estava tintim por tintim pronta nos livros em que eu estudava... não sei bem agora...mas me lembro de reparar as seguidas vezes que usavam a palavra verdade...Os três professores tentaram responder, acho que continuaram relativizando, "depende do ponto de vista", e me lembro bem do professor fechando a questão deixando-a sem resposta afirmando-na "uma questão filosófica demais". Fiquei frustado e acho que chocado "Se os caras não sabiam o que era verdade porque estudavam tanto?", "Como chegavam a alguma conclusão?". Esse algo "filosófico demais" me parecia o fundamental: por que eles deixavam o fundamental sem resposta?, "quê que era esse "negócio" de filosofia que a gente não estudava?". Me lembro que de início pensei em responder essa questão (quando crescesse ), mas depois, me lembro que esqueci disso e resolvi voltar ao futebol e tentar ser centroavante, ou meia, ou no mínimo lateral-direito, bater faltas bem...mas, com certeza, essa questão não me abandonou.

Goiânia, Junho de 2000

Marcos Carvalho Lopes é graduado em filosofia, professor (em Jataí-Goiás) dessa mesma disciplina não conseguiu seguir a carreira de atleta por absoluta falta de cordenação motora...agora fica escrevendo esses textinhos pra quem gostar.(marcoselopes@uol.com.br )

   

 

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