Sarma: um amontoado de coisas sem harmonia

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Sobre Profecias, Utopias e Democracia

Marcos Carvalho Lopes

 

 

Karl Marx não se preocupou em pensar uma ética: diante de suas análises sócio-econômicas, o grande dever moral que se empunha era a Revolução. Nisso, Marx foi bem romântico (por mais que negasse a influência de Jean-Jacques Rousseau e como já alertava Bakunin ). A ética marxista tornou-se a revolução; a estética marxista tornou-se a revolução; a vida dos marxistas tornou-se uma entrega “a causa”. Não deveria haver espaço para individualismos enquanto a grande profecia socialista não se torna-se real.

Marx analisou de forma brilhante a situação social, política e econômica do século XIX, previu com a certo que o capitalismo (como então existia ) estava com seus dias contados. Marx percebeu também que esse sistema econômico tinha as características da ave mitológica fênix, que renascia mais forte de suas próprias cinzas. Marx predisse que uma mudança muito forte era necessária, que os trabalhadores deveriam se preparar para, na hora certa, tomar o poder. Marx em parte estava certo: o capitalismo liberal do século XIX teve fim com a crise de 1929 (o abismo criado entre burguesia e proletariado fez com que faltassem consumidores e gerou o colapso do sistema ), o que, verdadeiramente, deu espaço para que grupos revolucionários chegassem ao poder; no entanto, foi o totalitarismo fascista, nazista ou stalinista que surgiu como proposta para o mundo. Doutro lado, os EUA trataram de reerguer a fênix do capitalismo, dando a ela pequenas “injeções” da teoria econômica do marxista Keynes: a diminuição da desigualdade criaria uma classe média consumidora que daria estabilidade ao sistema capitalista (era a social-democracia ). Pois bem: as previsões de Marx ajudaram a salvar o capitalismo.

Após a Segunda Guerra, a hegemonia dos EUA foi ampliada as custas da construção de uma “guerra sem guerra” que, em nome da democracia e das liberdades individuais, permitiu aos norte-americanos construir um Império global, ainda que para isso tivesse que apoiar regimes fascistas que de forma alguma respeitavam os direitos individuais (como as Ditaduras Militares ou mesmo a Al Quaeda ou Sadam Hussein ).

A “ética” da revolução socialista, misturada com toques de nacionalismo, tornou-se o refúgio natural dos que tentavam um caminho alternativo para o chamado terceiro mundo. Em verdade, após a segunda guerra somente o terceiro mundo foi palco de revoluções, todas elas reinvindicando nacionalismo, ora de direita, ora de esquerda, ora de Alá (que, como todo deus, “está do lado de quem vai vencer”).

Depois que o espectro do fantasma socialista (que, segundo Marx, rondava a Europa ) tornou-se economicamente irrelevante, diante da recessão ecfonomica global da década perdida (anos 80), os EUA abriram mão de arcar com os custos de uma reconstrução dos excluídos; não haveria Plano Marshall para os “gripados” da Guerra Fria. A América Latina ganhou a democracia, e entrou em um jogo que há muito tinha começado sem instrumentos para jogar; antigos protetorados foram entregues a própria sorte (ou azar ), como o Afeganistão, que ficou livre para o regime Talibã administrar sua pobreza e o ódio ao Satã Ocidental, etc. A democracia no Brasil precisava ser construída, em verdade, o Estado precisava ser re-inventado.

A construção da democracia brasileira continua um desafio. O “pus” da desintoxicação e um vício oligárquico paternalista continua sendo a excreção mais evidente desse processo. A contradição em termos, quando se afirma a existência de uma “instituição revolucionária” tornou-se patente: para ser revolucionária e construir outro sistema, a instituição não pode (e nem se vê comprometida a )seguir as regras do jogo. O partido revolucionário deve abandonar a ética sem ética da revolução. Não temos um debate político verdadeiramente democrático quando o governo pede desculpas por não saber governar e a oposição, com doses de fisiologismo, ironicamente sorri, já que a pouco foi governo e percebe que nada mudou.

Apesar dos pesares do mundo, não existe por aqui quartel, profetas, super-intelectuais ou playboy que tenham a formula mágica que dê governo ao governo. Devemos aprender a democracia e a viver na legalidade. Devemos dar um basta as profecias e aos misticismos, que fazem tantos vagar sem rumo a espera de um milagre que deveria sair das mãos do benevolente (e assistencialista) do deus “Estado”. Juntemos os cacos da utopia e procuremos fugir da ideologia antiquada para dialogar verdadeiramente sem querer novamente transformar os discursos em profecias que justifiquem a violência, a falta de ética e a corrupção.

 

Marcos Carvalho Lopes ( marcosclopes@gmail.com )é mestrando em filosofia, foi professor de História no Cefet/Jataí, de Filosofia no Colégio Estadual Nestório Ribeiro e Específico em Jataí

 

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