Rádio Pirata

Abordar navios mercantes
Invadir, pilhar, tomar o que é nosso
Pirataria nas ondas do rádio
Havia alguma coisa de errada com o rei
Preparar a nossa invasão
E fazer justiça com as próprias mãos
Dinamitar um paiol de bobagens
e navegar o mar da tranqüilidade
Toquem o meu coração, façam a revolução
Está no ar nas ondas do rádio
No submundo repousa o repúdio
E deve despertar
Disputar em cada freqüência
Um espaço nosso nessa decadência
Canções de guerra, quem sabe canções do mar
Canções de amor ao que vai vingar
Toquem o meu coração, façam a revolução
Está no ar nas ondas do rádio
No underground repousa o repúdio e deve despertar oh
Grupo RPM (Revoluções por Minuto), 1985. (Paulo Ricardo e Luis Schiavon).
O que é Revolução?
A História apresenta uma continuidade de acontecimentos; com base neles, é difícil dividir a história em períodos; tal divisão será sempre arbitrária. Rupturas acontecem no nível das estruturas, não dos acontecimentos. Só a partir de mudanças estruturais pode-se pensar em um divisão de períodos não-arbitrária, pois são essas mudanças que dão sentido aos acontecimentos.
As revoluções ocorrem quando fatos mais significativos ocorrem próximos uns dos outros. O tempo histórico se contrai e se aceleram as transformações. O fluxo histórico se rompe, ganha novo sentido. É exatamente nas mudanças operadas nos níveis do acontecimento e da estrutura que reside a própria natureza da História.
Ao analisar o processo histórico, é importante perceber esses momentos de transição, momentos privilegiados para o entendimento da Históri a. (Pilleti, Nelson e José Jobson Arruda. Toda a História , Ática 1995. P. 7-8)
Revolução, Revolução Burguesa e Mudanças Controladas
O termo revolução advém da astronomia. indicando o movimento pelo qual um astro desenvolve um trajeto circular completo, retornando a seu ponto de partida. Ë interessante saber como esse termo passou a referir-se as mudanças na estrutura/ordem social, sendo que esse hoje é o seu sentido mais usual. Tal mudança de conteúdo semântico, deve-se ao fato de que, para romper definitivamente com o sistema feudal, derrubando a ordenação social do Antigo Regime (absolutismo e mercantilismo ) foram necessários que ocorressem movimentos de grande convulsão social que foram chamados de revoluções burguesas.

Nessas revoluções (Revolução Inglesa de 1644, Revolução Norte-americana de 1776 e Revolução Francesa de 1789 ) temos uma mesma estrutura básica: (1) a burguesia, afim de tomar o poder dos reis se vale e incentiva a revolta popular; (2) conseguindo a transformação política desejada (passagem da monarquia à República ) a burguesia passa a reprimir a população que ainda deseja maiores transformações sociais; (3) com o poder nas mãos a burguesia derrota os anseios populares, usando mesmo de força para reprimir os movimentos de contestação, garantindo a ordem (liberal) e pondo fim no processo de transformação revolucionário.
Com a ascensão da burguesia, o desenvolvimento maior do comércio e da ânsia por lucros, cada vez de forma mais acentuada ocorreu uma separação entre o espaço público e o espaço privado. Três elementos foram fundamentais nessa transformação: (1) circulação maior de livros, a partir da invenção da imprensa por Gutenberg, que permitiu cada vez mais o desenvolvimento de uma leitura silenciosa e individual (e por isso com maior espaço para a crítica ); (2) as transformações advindas das reformas religiosas e (3) o novo papel tomado pelo Estado Moderno, que ganhando cada vez mais força passou a intervir de forma impessoal na vida da população.
Essas transformações fazem surgir um inédito espaço privado pelo qual a burguesia vai querer lutar: querem espaço para exercer sua liberdade, noutro sentido, querem se libertar da sociedade de ordens, pela qual a nobreza tinha privilégios hereditários, para eles inexplicáveis. Essa liberdade traduzida em termos econômicos significa: não querem mais os monopólios mercantis, defendendo uma livre-concorrência.
Existe como idéia central do liberalismo a separação entre o Estado e a sociedade civil: cabe ao Estado (é sua função ) defender a propriedade privada, sendo que, é essa mesma propriedade privada que serve como diferencial entre as classes sociais dentro da ordem burguesa,
A burguesia não quer mais uma sociedade fundada em uma ordenação que tem por princípio a hereditariedade (ligada a posse de terras ), mas, nem por isso, quer que deixe de existir ordenação social (diferenças hierárquicas ), porém essas vão ser marcadas a partir das revoluções burguesas pela posse ou não de dinheiro. ( Marcos Carvalho Lopes-2003)
Revoluções por Minuto e a burguesia no poder

“ A burguesia não pode existir sem revolucionar, constantemente, os instrumentos de produção e, desse modo, as relações de produção e, com elas, todas as relações da sociedade.”, escreveram Karl Marx e Friendrich Engels em seu Manifesto Comunista de 1848. Eles já percebiam na metade do século XIX que o capitalismo precisava sempre de ‘novidade', esse novo surge a cada dia, na moda, a partir do desenvolvimento científico tecnológico, que sempre gera produtos diferentes para o mercado...
Revoluções por Minuto, “a burguesia não pode existir sem revolucionar”, a cada segundo uma novidade, um novo produto na prateleira, uma luz néon na fachada, outro estilo musical ‘irresistível', uma nova onda na moda, na informática, ou mesmo no surf. Os “companheiros” estavam certos quando diziam que no capitalismo “tudo que é sólido derrete-se no ar”, em nome da livre-concorrência, do desenvolvimento, do lucro...

Em 1986, impulsionado pelo plano cruzado de Sarney, a novidade era o rock, a novidade era (em grande parte ) o RPM, que vendeu na época mais de 2,5 milhões de cópias de seu álbum “Rádio Pirata - Ao Vivo”. A sigla RPM significa(va) literalmente “Revoluções por Minuto” ( e serviria bem para definir o sucesso da banda na época: num ano eram a maior banda do Brasil, no outro já não eram ).
O RPM foi a superbanda do rock nacional. Vendia mais que todos, fez do seu show uma super produção, eram (inicialmente ) ovacionados pela crítica, Paulo Ricardo era o símbolo sexual das adolescentes brasileiras...eram tudo demais...e nisso acabaram se expondo demais, em meio a drogas demais, e a sede desenfreada de lucros (deles) e das gravadoras que se tornaram algo como “a melhor banda de todos os tempos da última semana” . Assim se entende melhor porque em um de seus maiores sucessos, Rádio Pirata, o grupo cantasse uma Revolução Burguesa.
(Marcos Carvalho Lopes- 2003 )


