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Seriam os deuses terroristas?

Marcos Carvalho Lopes 27/02/2005

 

Imagem do pensador francês Jean Baudrillard

A noção de progresso, que enfeitiçou os iluministas no século XVIII, se manteve presente no positivismo do século XIX e não deixou de fazer estardalhaço no século XX: com a crença na ciência e suas iminentes revoluções, que transformariam ( de repente e por completo ) a vida do homem na terra. Esse discurso parece ter sido enterrado (ou ter adormecido ) quando tribos semi-feudais árabes, literalmente ‘homens da caverna”, desafiaram o mundo e colocaram a ameaça terrorista na ordem do dia a a partir do 11 de Setembro de 2001.

Longe do paradigma da Guerra Fria, enfraquecida a imagem do progresso, é necessário criar novos ídolos, um novo mito que unifique a humanidade, uma “lógica mágica” que explique o universo. O filósofo Jean Baudrillard aponta para a criação de novas mitologias (no texto Apocalipse da Razão, publicado pela Folha de São Paulo no dia 27/02/2005), baseadas na idéia de uma ordem “progressivamente monstruosa” que sempre procura (e encontra, reinventa ) o seu “crime original”. Esse “crime original” seriam os ataques terroristas de 11 de setembro, que, no entanto, exigem e produzem uma reavaliação simbólica da história: por isso a importância hiperbólica dada sos 60 anos do Holocausto. Os eventos catastróficos tornam-se objeto de culto, fetiche. Suas imagens são repetidas a exaustão, se virtualizam e ganham universalidade: todos somos judeus e todos somos nazistas, somos os inocentes americanos e somos os assassinos terroristas, então, celebramos com o controle remoto nas mãos (não lembramos ).

A irrupção do mal toma perfil paranóico, o terrorismo torna-se uma ameaça constante e, mesmo as forças naturais podem ser usadas para demonstrar o mito: Baudrillard chega a afirmar que o “tsunami faz parte, literalmente, do Eixo do Mal”. A catástrofe permite a união das forças mundiais em torno de um “consenso ou chantagem universal”, em que a caridade e o movimento humanitário ganham uma dimensão obscena. Terrorismo e/ou catástrofes naturais, não importa, o resultado para Baudrillard é que “a confusão termina sendo explorada, em um e outro sentido, de tal modo que determinado grupo possa reivindicar o acidente como ato terrorista ou que o poder possa camuflar um atentado como acidente”.

Diante dessa “onda” do mal, o bem deve atacar preventivamente: a lógica de combate ao terror cria o terrorismo preventivo. O bem deve exterminar o mal. Resultado: novos holocaustos, novos atentados e o luto impossível. Baudrillard percebe bem a ambigüidade do “mal absoluto” que se torna mito, diz ele: “o mal que temos entre nós e que pode vir a se repetir não é aquele que se opõe ao bem, mas aquele que foi produzido pelo excesso de bem”.

Na década de 60 um livro fazia muito sucesso lançando a pergunta “Seriam os deuses astronautas?”. A paranóia em torno de extraterrestres, forças cósmicas, etc., fomentou um monte de filmes e espetáculos (como a corrida espacial, que levou o homem à lua). Serviu também para “justificar” a criação de armas em escala tal que poderiam diversas vezes a Terra (o programa de armamento do governo Reagan na década de 80 chamava-se Guerra nas Estrelas ). Hoje, diante do uso feito da religião seja pelos israelenses, por terroristas como Bin Laden ou pelo presidente norte-americano George W. Bush, um novo best-seller esta por ser escrito: “Seriam os deuses terroristas?”.

Publicado na Folha do Sudoeste 3 a 9/03/2005

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