Sarma: um amontoado de coisas sem harmonia

"Rock" e Filosofia(s)

Destaques:

Luta de Classes

A luta de classes como motor da história em uma música do Cidade Negra : confira...

Brasil: um país aonde a moeda é a relalidade

Notas sobre o paradigma da estabilidade econômica e a crise política no Governo Lula clique e confira ... .

Tédio, TV, Democracia

"Esse foi o texto da minha “primeira aula”..quer dizer: minha primeira aula de verdade. Estava fazendo estágio e as coisas não iam muito bem: os alunos detestavam quando os estagiários começavam a falar em filósofos antigos e empoeirados: eles queriam algo atual...As aulas de filosofia eram um desastre. Não tínhamos material didático e não foi possível esconder a falta de direção. Fiquei super chateado, mas: o que fazer? Resolvi preparar o meu material, tentar trazer alguma coisa que os alunos gostassem...Por isso, a partir de três músicas do rock nacional tentei incentivar uma discussão sobre Democracia, Meios de Comunicação, etc...Na verdade, por conta da minha falta de experiência, não consegui explorar o material como deveria...mas foi o primeiro passo: tanto na minha invenção como professor (comecei a gostar daquilo), quanto do meu projeto de pensar o rock nacional (mais especificamente, o trabalho da Legião Urbana ).
(Um exemplo das coisas que “não consegui”: coloquei como ilustração desse texto um desenho dos Pokemons...Tinha um sorriso quando fiz isso, mas não expliquei para a turma porque; é que hoje a inversão entre público e privado é tão grande, que mesmo as crianças não acreditam mais serem os heróis...os heróis são virtuais, comandados pelos humanos: estamos na era dos vídeo-games e essa é uma situação grave: quando nem as crianças podem se imaginar como heróis, nem elas fantasiam mudar o mundo, mas encarregam isso a outros...virtualizamos a esperança da democracia. É por aí. )"

Marcos Carvalho Lopes (Jataí, 2005)

 

Teatro dos Vampiros (trecho)
“Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou só sei do que não gosto
Esses dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos
Esse é o nosso mundo: o que é demais nunca é o bastante,
A primeira vez é sempre a última chance”

(Legião Urbana)

Essa música, segundo o autor (Renato Russo), tem por tema a televisão. Nos surpreendemos de não perceber nenhuma referência direta ao aparelho, ou a “rede globo”, porém, ainda assim o tema se esclarece. É preciso olhar mais de perto o dito, pensar o pensado, atitude que não é comum na cotidianidade.
Todos precisamos de atenção. Essa parece ser uma afirmação evidente. O autor segue dizendo não saber o que é, porém conhecer o que não quer. Essa é uma afirmação negativa. O indivíduo se afirma negando: dizendo não. Ao que, para o que ele diz não?
A reposta parece apresentar-se de forma indireta: “esses dias tão estranhos/ fica a poeira se escondendo pelos cantos.” Dias em que a poeira toma conta, dias de indiferença para com o mundo a sua volta: dias de tédio. Tédio e indiferença que deixam o mundo como está: “onde o que é demais nunca é o bastante/ a primeira vez é sempre a última chance/ ninguém vê onde chegamos/ os assassinos estão livres, nos não estamos”. Essa é uma descrição do mundo a ser negado, mundo que pede tudo ‘agora’, na imediatez do consumismo; que promove a disputa e a indiferença, e que, nessa disputa, nos cerca com uma violência que, em verdade, não vem de “baixo para cima”, mas de “cima para baixo”.

Muros e Grades (trecho)
“Nas grandes cidades
Num pequeno dia-a-dia
O medo nos leva tudo
Sobretudo a fantasia
Então erguemos muros
Que nos dão a garantia
De que morreremos cheios
de uma vida tão vazia”

(Engenheiros do Hawaii )

A violência não é um acaso numa sociedade em que a distribuição de renda se mostra tão desigual como no Brasil. A violência não se justifica, porém acaba por justificar a desigualdade. A disputa silenciosa se acirra, assim como o medo. Nas grandes cidades essa angústia se intensifica por estarmos na maioria das vezes cercados por tudo aquilo que a sociedade consumista prega como certo, e tudo aquilo que ela fomenta indiretamente (a partir e seus erros).
A indiferença cerca, e nesse “cercar-se” todos são iguais: ninguém se importa com nada a não ser consigo mesmo. E depois surge a pergunta: “por que vivemos uma vida tão vazia?”. Questão que não ouvimos (1) por estarmos indiferentes para com a resposta, ou (2) por estarmos indiferentes para com nós mesmos.

Televisão
“A televisão me deixou burro, muito burro demais
E agora todas coisas que eu vejo me parecem iguais.”

(Titãs)

Os meios de comunicação se movem de acordo com a publicidade. A publicidade se caracteriza por tentar tornar público o que é privado, tentar tornar o particular, geral. Ela quer “todos iguais”, só que essa igualdade, mais e mais se direciona a indiferença.
O público quer mais e mais essa inversão: tornar o privado público e o público privado. Querem decidir e saber sobre a vida dos outros, na mesma medida em que se esquecem da própria vida e da vida em comunidade.
A comunidade é comum-unidade, é a união de todos pelo bem comum. Dificilmente poderíamos dizer, hoje, que vivemos em comunidade. Dificilmente nos unimos tendo em vista o bem comum.
A Democracia pede, propõe, a participação de cada um (até mesmo para se legitimar), porém, numa época em que a indiferença tornada pública ameaça a própria publicidade; que cada um que apenas o seu, caminhamos contra a democracia. Como podemos querer a Democracia conquanto afirmamos e vivemos na indiferença?

Marcos Carvalho Lopes, Goiânia (2000)

 

O que diz Sarma? | O que tem nesse site | Contato| ©2005