Toda forma de poder (Humberto Gessinger)

Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Fidel e Pinochet tiram sarro de você
Que não faz nada
E eu começo a achar normal que algum bossal
Atire bombas na embaixada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer
Toda forma de poder
E uma forma de morrer por nada
Toda forma de conduta
Se transforma numa luta armada
A história se repete
Mas a força deixa a estória mal contada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer
O fascismo e fascinante
Deixa a gente ignorante fascinada
E tão fácil ir adiante
E esquecer que a coisa toda está errada
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer...
A Utopia Socialista e a Resposta Cética: o Anarquismo

Por Marcos Carvalho Lopes
“Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem.” Oscar Wilde
Hoje em dia é comum de vez em quando a gente encontrar por aí, pichado nos muros, ou mesmo em cadernos e mochilas o símbolo do anarquismo. Mas é de se duvidar de que as pessoas se preocupem, ou mesmo, saibam o que significa, em termos de proposta política, o anarquismo. Isso se deve em grande parte ao fato do anarquismo não ser algo sistemático, algo que possa ser descrito de maneira rígida. Mesmo o seu principal teórico, Bakunin (1814-1865 ), não deixava as coisas claras já que dificilmente concluía as obras que começava. Mas, nem por isso deve-se cair no erro fundamental de confundir anarquismo com bagunça.
O anarquismo surgiu historicamente como uma espécie de dissidência do marxismo. Karl Marx achava que os trabalhadores deveriam tomar o poder e manter uma espécie de ditadura ( a ditadura do proletariado) afim de evitar que a burguesia retornasse ao poder(com uma contra-revolução). O estágio em que o Estado estaria nas mãos dos trabalhadores seria o socialismo , que, aos poucos seria substituído pelo comunismo , onde não haveria mais espaço para Estado ou luta de classes.
Bakunin considerava Marx otimista e ingênuo: o poder corrompe as pessoas e quem quer que o tomasse acabaria por querê-lo para si. Qualquer classe ao chegar ao poder dele se apossaria, a “ditadura do proletariado” acabaria construindo uma hierarquia de funcionários públicos e tecnocratas que haveria de querer perpetuar-se como dominante. A solução estaria em tentar o salto direto para o comunismo, que seria uma espécie de governo sem governantes: seria o anarquismo (anarquismo significa “sem governante”).
O anarquismo não constituiria partidos ou teses dogmáticas, evitando “toda forma de poder”, ele seria um movimento vivo, como um organismo, fundado na cooperação e não na organização burocrática. Os anarquistas não acreditam na “representação política” e procuram limitar o espaço para esse tipo de prática ao mínimo possível: quando necessário se elegeriam de legados com o tempo de mandato limitado e sujeito a revogação. O anarquismo previa a supressão da propriedade privada dos meios de produção que dariam lugar a cooperativas, onde as decisões seriam comuns. Dá mesma forma os anarquistas negam a Igreja: “para afirmar o homem, é preciso negar Deus”. Em certa medida, pode-se comparar as idéias anarquistas com a democracia radical de Jean-Jacques Rousseau. Pode-se considerar heranças anarquistas a idéia de orçamento participativo: o importante é manter a consulta direta as pessoas envolvidas.
O anarquismo em poucos momentos teve uma verdadeira força política: ganhou força no sindicalismo (que desembarcou no Brasil juntamente com os italianos ) entre o fim do século XIX e início do século XX e teve seu momento de maior força durante a Guerra Civil Espanhola. A desobediência civil de Mahatma Gandhi, na luta pela independência da Índia pode ser considerada um exemplo de prática anarquista.
Após a Segunda Guerra Mundial o anarquismo foi trivializado ressurgindo em diversos movimentos que parecem muito mais expressar o individualismo da burguesia capitalista: como no caso do movimento hippie, do maio de 1968, ou mesmo do movimento punk. Rejeitar o poder político é uma coisa, recusar-se a participar dele mas tentar fazer o pentágono levitar já é algo muito “desgovernado”, mas que por fim geou lá seus resultados:
“Em Outubro [1967 contra a Guerra do Vietnã], em Washington, 50 mil pessoas marcharam sobre o Departamento de Defesa. Vestidos como vagabundos, risonhos como palhaços, carregavam flores, sugeriam que se fizesse amor e não guerra. Nessa manifestação que o professor americano Allen Matusow chama de “um dos mais significativos acontecimentos da história dos Estados Unidos”, um grupo de hippies tentou fazer levitar o Pentágono. A imensa construção, que abriga os maiores corredores do mundo, não levitou, mas hoje se sabe que por conta daqueles hippies ela sem dúvida saiu do lugar.” [1]
[1] Gaspari, Elio. A roda de Aquarius in: A Ditadura Envergonhada / São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Página 234.


