¿Três concepções de linguagem?
É paradigmática nas universidades brasileiras a idéia de
concepções de linguagem, sendo mais comum a divisão dessas em três. Tal divisão
parece remontar a Bakhtim que em seu Marxismo e Filosofia da
Linguagem apresenta três
orientações do pensamento filosófico-lingüístico a partir das quais, dentro dos
moldes do método dialético marxista, procura desvelar o caráter material do
signo lingüístico.
Toda a obra Marxismo e Filosofia da Linguagem segue a
cartilha marxista buscando passar do mais abstrato para o mais concreto. A idéia
de concepções de linguagem aparece na segunda parte do livro que têm por título
"Para uma filosofia marxista da linguagem". Como segundo momento de um pensar
dialético, ali Bakhtim tenta limitar, de-limitar, os contornos de uma abordagem
marxista da linguagem. Esse momento seria impossível sem o momento anterior, a
primeira parte do livro onde o autor se aproxima das relações entre
signo/ideologia, infra-estrutura/super-estrutura,
linguagem/pensamento(psicologia ), etc..
No final do capítulo em que expõe as duas orientações do
pensamento filosófico-lingüístico que darão abertura para sua síntese em sua
concepção de linguagem, Bakhtim nos alerta:
"Em lingüística,
como em toda ciência específica, existem essencialmente duas maneiras de se
livrar do penoso trabalho que uma reflexão filosófica séria, fundada sobre
princípios, exige. A primeira consiste em erigir, logo de saída, todos os
princípios em axiomas (academicismo eclético ); a outra consiste em descartar
todos os princípios e proclamar o fato (factum ) como fundamento e critério
último de todo ato cognitivo (positivismo acadêmico ). O efeito filosófico que
resulta destes dois procedimentos para se livrar da filosofia é o mesmo, já que,
no segundo caso, podem caber o saco onde se lê "Fato" todos os princípios
possíveis e imagináveis. A escolha de uma modalidade ou de outra depende
inteiramente do temperamento do pesquisador; os ecléticos são mais relaxados, os
positivistas mais exigentes."
Logo a seguir, Bakhtim coloca os limites de sua própria
classificação, uma vez que:
"Encontram-se em
lingüística numerosas produções e mesmo escolas inteiras (escolas no sentido de
estudo científico-técnico ) que se dispensam da tarefa de seguir uma orientação
filosófico-linguística. Mas elas não entram, evidentemente, no quadro de nossa
apresentação. Existem, por fim, alguns lingüistas e filósofos não mencionados
aqui, como Otto Dietrich e Anton Marty, e que citaremos adiante quando
analisarmos os problemas da interação lingüística e da
significação."
Podemos saber então:
A) que as concepções de linguagem presentes na obra
Marxismo e Filosofia da Linguagem de Bakhtim não podem ser colocadas fora de seu
lugar (na obra ) sem que com isso se perca seu lugar dentro do pensamento
(dialético ) de Bakhtim;
B) Que Bakhtim condena por um lado o academicismo
eclético que logo de saída proclama seus princípios como axiomas e por outro
lado o positivismo acadêmico que descarta todos os princípios e proclama o fato.
Parece claro que o autor defende a síntese entre essas
posições;
C) As concepções de linguagem de Bakhtim, como ele mesmo
afirma, não abarcam todo o pensar acerca da linguagem;
Encontramos muitos livros que lançam em suas primeiras
páginas a idéia de concepções de linguagem a la
Bakhtim. Nas universidades brasileiras parece também ser usual durante as
primeiras aulas que os alunos aprendam as três concepções de linguagem e seus
representantes.
Esses conceitos, que teriam como objetivo sistematizar o
estudo da linguagem, acabam, em sua repetição/trivialização cristalizando-se
como um dogma que vela um verdadeiro estudo sobre o ser da
linguagem.
A idéia de
concepções de linguagem tomada como um a
priori metodológico caba por prescrever
o modo como se deve ver a linguagem e os autores que dela tratam. Com isso, as
concepções de linguagem acabam sendo tomadas como "um pre-ceito, um
pre-conceito" que não se coloca de forma crítica, mas de maneira meramente instrumental.
(É mesmo muito estranho ficarmos presos aos resquícios
de positivismo/iluminismo do pensamento de Bakhtim tomando como o fundamental o
brilho fosco de fórmulas... )
Os autores são colocados em gavetas com etiquetas,
primeira, segunda, terceira concepção de linguagem; e o aluno deve "escolher" em
que gaveta/rótulo gostaria de se filiar (essa escolha fica de certa forma
facilitada quando as três orientações são vistas como fruto de uma evolução
(dialética )).
Esse "colocar em gavetas" é problemático até para os que
o assumem conscientemente: o livro de Bakhtim é do final da década de vinte,
então não tinha uma gaveta pronta p’ro Chomsky, p’ra teoria dos atos de
fala...uns colocam Chomsky na primeira concepção proposta por Bakhtim, outros na
segunda....E outros, que parece que nunca leram Bakhtim, promovem uma
falsificação da teoria....a verdade é que, de uma forma ou de outra, Bakhtim
permanece no degrau mais alto do pódium
(até com justiça porque ele mesmo já
tinha colocado todo esse pessoal que proclama axiomas e princípios logo de saída
na gaveta do academicismo
eclético ).
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Se me perguntassem acerca de Bakhtim, "Por que três
concepções de linguagem e não quatro, ou sete, ou...?" , Responderia que o
método dialético marxista assim pedia e Bakhtim assume esse método muito
claramente.
Essa pergunta repetida sobre os que falam hoje de três
concepções de linguagem, parece que não pode ter a mesma resposta de maneira
clara. A dialética é colocada nas concepções e deixada de lado na maioria das
vezes.
Noutros casos, assumisse a dialética. Então aparecem:
três foras de leitura, três fases da evolução do pensamento acerca da linguagem,
três concepções de gramática...
Cabe a crítica comum a esse modo de ver: o reducionismo
necessário para enquadrar os fatos na fórmula. Porém, como método assumido
explicitamente a dialética não pode ser tão atacada, afinal, como disse
Wittgenstein "se verdadeiro é o que é fundamentado, o fundamento por si só não é
verdadeiro nem falso."
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É necessário ter em vista as palavras de Aristóteles: "o
ser se diz de vários modos, mas tendo em vista uma natureza única" (Met. Livro
IV §2). De muitas maneiras podemos abordar a linguagem, mas é sempre necessário
compreender que falamos de uma mesma linguagem (assumindo como pressuposto da
cientificidade a não-contradição ).
O professor Luiz Antonio Marcushi, que no dizer de
Marcos Bagno é reconhecido (quase de forma unânime ) como o maior lingüista do
Brasil, afirma em seu texto O papel
da lingüística no ensino de línguas:
"parece
necessário refletir formas de superar particularmente a dicotomia entre teoria e
prática e perceber a unidade que existe entre sincronia e diacronia, função e
valor, forma e conteúdo, sujeito e objeto, objetivo e subjetivo, individual e
social, racional e emocional, natural e cultural – e assim por diante. Essa
superação das dicotomias, se dará na medida em que as tornarmos desnecessárias
pela natural visão holística e globalizante dos fenômenos e não pela opção por
um de seus pólos. Com a superação, teremos desenhado uma nova forma de fazer
ciência, assim como se vem operando desde os anos 80 de nosso século."
Tal tarefa de des-truição das dicotomias esbarra na
idéia de concepções de linguagem, na medida em que essas se mostram apenas como
repetições fraseológicas e põe-se longe de uma verdadeira leitura dos autores
clássicos e da diversidade da linguagem. Nesse sentido, é necessário voltar a
Marx e Engels e observar o que estes dizem acerca da escola-jovem hegeliana, que
apesar de enunciarem frases pomposas que revolucionariam o mundo se mostravam
essencialmente conservadores: "quando
afirmam lutar unicamente contra uma "fraseologia" esquecem-se de que apenas lhe
opõe uma outra fraseologia e de que é lutando contra a fraseologia de um mundo,
que se luta com o mundo que realmente existe." (Marx, K. e Engels, F. A Ideologia Alemã )
Penso que não vale a pena descartar uma visão dicotômica
e assumir simplesmente uma dialética "de três lados".
No imperar da fraseologia se combate ideologia com
ideologia, mito com mito, e o trabalho de verdadeiro desvelamento e
questionamento científico é deixado de lado. Assim, dizer "quem não fala certo
(de acordo com o padrão culto ) não pensa (certo )" é mostrar uma postura tão
ideológica quanto afirmar simplesmente "Para Saussure (e todo o pensamento
anterior ) a linguagem era espelho do raciocínio" e dispensar, com essa
fraseologia, um estudo verdadeiro da linguagem, ou uma abordagem direta de
Saussure e de toda a tradição abarcada numa "primeira concepção de linguagem".
Prender-se a fraseologia é prender-se a ideologia.


