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¿Três concepções de linguagem?  
Marcos Carvalho Lopes  
 
 
É paradigmática nas universidades brasileiras a idéia de concepções de linguagem, sendo mais comum a divisão dessas em três. Tal divisão parece remontar a Bakhtim que em seu Marxismo e Filosofia da Linguagem apresenta três orientações do pensamento filosófico-lingüístico a partir das quais, dentro dos moldes do método dialético marxista, procura desvelar o caráter material do signo lingüístico.  
Toda a obra Marxismo e Filosofia da Linguagem segue a cartilha marxista buscando passar do mais abstrato para o mais concreto. A idéia de concepções de linguagem aparece na segunda parte do livro que têm por título "Para uma filosofia marxista da linguagem". Como segundo momento de um pensar dialético, ali Bakhtim tenta limitar, de-limitar, os contornos de uma abordagem marxista da linguagem. Esse momento seria impossível sem o momento anterior, a primeira parte do livro onde o autor se aproxima das relações entre signo/ideologia, infra-estrutura/super-estrutura, linguagem/pensamento(psicologia ), etc..  
No final do capítulo em que expõe as duas orientações do pensamento filosófico-lingüístico que darão abertura para sua síntese em sua concepção de linguagem, Bakhtim nos alerta:  
 
"Em lingüística, como em toda ciência específica, existem essencialmente duas maneiras de se livrar do penoso trabalho que uma reflexão filosófica séria, fundada sobre princípios, exige. A primeira consiste em erigir, logo de saída, todos os princípios em axiomas (academicismo eclético ); a outra consiste em descartar todos os princípios e proclamar o fato (factum ) como fundamento e critério último de todo ato cognitivo (positivismo acadêmico ). O efeito filosófico que resulta destes dois procedimentos para se livrar da filosofia é o mesmo, já que, no segundo caso, podem caber o saco onde se lê "Fato" todos os princípios possíveis e imagináveis. A escolha de uma modalidade ou de outra depende inteiramente do temperamento do pesquisador; os ecléticos são mais relaxados, os positivistas mais exigentes." 
 
Logo a seguir, Bakhtim coloca os limites de sua própria classificação, uma vez que: 
 
"Encontram-se em lingüística numerosas produções e mesmo escolas inteiras (escolas no sentido de estudo científico-técnico ) que se dispensam da tarefa de seguir uma orientação filosófico-linguística. Mas elas não entram, evidentemente, no quadro de nossa apresentação. Existem, por fim, alguns lingüistas e filósofos não mencionados aqui, como Otto Dietrich e Anton Marty, e que citaremos adiante quando analisarmos os problemas da interação lingüística e da significação." 
 
Podemos saber então: 
 
A) que as concepções de linguagem presentes na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem de Bakhtim não podem ser colocadas fora de seu lugar (na obra ) sem que com isso se perca seu lugar dentro do pensamento (dialético ) de Bakhtim; 
 
B) Que Bakhtim condena por um lado o academicismo eclético que logo de saída proclama seus princípios como axiomas e por outro lado o positivismo acadêmico que descarta todos os princípios e proclama o fato. Parece claro que o autor defende a síntese entre essas posições; 
 
C) As concepções de linguagem de Bakhtim, como ele mesmo afirma, não abarcam todo o pensar acerca da linguagem;  
 
Encontramos muitos livros que lançam em suas primeiras páginas a idéia de concepções de linguagem a la Bakhtim. Nas universidades brasileiras parece também ser usual durante as primeiras aulas que os alunos aprendam as três concepções de linguagem e seus representantes. 
Esses conceitos, que teriam como objetivo sistematizar o estudo da linguagem, acabam, em sua repetição/trivialização cristalizando-se como um dogma que vela um verdadeiro estudo sobre o ser da linguagem. 
A idéia de concepções de linguagem tomada como um a priori metodológico caba por prescrever o modo como se deve ver a linguagem e os autores que dela tratam. Com isso, as concepções de linguagem acabam sendo tomadas como "um pre-ceito, um pre-conceito" que não se coloca de forma crítica, mas de maneira meramente instrumental.  
(É mesmo muito estranho ficarmos presos aos resquícios de positivismo/iluminismo do pensamento de Bakhtim tomando como o fundamental o brilho fosco de fórmulas... )  
Os autores são colocados em gavetas com etiquetas, primeira, segunda, terceira concepção de linguagem; e o aluno deve "escolher" em que gaveta/rótulo gostaria de se filiar (essa escolha fica de certa forma facilitada quando as três orientações são vistas como fruto de uma evolução (dialética )).  
Esse "colocar em gavetas" é problemático até para os que o assumem conscientemente: o livro de Bakhtim é do final da década de vinte, então não tinha uma gaveta pronta p’ro Chomsky, p’ra teoria dos atos de fala...uns colocam Chomsky na primeira concepção proposta por Bakhtim, outros na segunda....E outros, que parece que nunca leram Bakhtim, promovem uma falsificação da teoria....a verdade é que, de uma forma ou de outra, Bakhtim permanece no degrau mais alto do pódium (até com justiça porque ele mesmo já tinha colocado todo esse pessoal que proclama axiomas e princípios logo de saída na gaveta do academicismo eclético ). 
 
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Se me perguntassem acerca de Bakhtim, "Por que três concepções de linguagem e não quatro, ou sete, ou...?" , Responderia que o método dialético marxista assim pedia e Bakhtim assume esse método muito claramente.  
Essa pergunta repetida sobre os que falam hoje de três concepções de linguagem, parece que não pode ter a mesma resposta de maneira clara. A dialética é colocada nas concepções e deixada de lado na maioria das vezes.  
Noutros casos, assumisse a dialética. Então aparecem: três foras de leitura, três fases da evolução do pensamento acerca da linguagem, três concepções de gramática...  
Cabe a crítica comum a esse modo de ver: o reducionismo necessário para enquadrar os fatos na fórmula. Porém, como método assumido explicitamente a dialética não pode ser tão atacada, afinal, como disse Wittgenstein "se verdadeiro é o que é fundamentado, o fundamento por si só não é verdadeiro nem falso." 
 
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É necessário ter em vista as palavras de Aristóteles: "o ser se diz de vários modos, mas tendo em vista uma natureza única" (Met. Livro IV §2). De muitas maneiras podemos abordar a linguagem, mas é sempre necessário compreender que falamos de uma mesma linguagem (assumindo como pressuposto da cientificidade a não-contradição ).   
O professor Luiz Antonio Marcushi, que no dizer de Marcos Bagno é reconhecido (quase de forma unânime ) como o maior lingüista do Brasil, afirma em seu texto O papel da lingüística no ensino de línguas
 
"parece necessário refletir formas de superar particularmente a dicotomia entre teoria e prática e perceber a unidade que existe entre sincronia e diacronia, função e valor, forma e conteúdo, sujeito e objeto, objetivo e subjetivo, individual e social, racional e emocional, natural e cultural – e assim por diante. Essa superação das dicotomias, se dará na medida em que as tornarmos desnecessárias pela natural visão holística e globalizante dos fenômenos e não pela opção por um de seus pólos. Com a superação, teremos desenhado uma nova forma de fazer ciência, assim como se vem operando desde os anos 80 de nosso século."  
 
Tal tarefa de des-truição das dicotomias esbarra na idéia de concepções de linguagem, na medida em que essas se mostram apenas como repetições fraseológicas e põe-se longe de uma verdadeira leitura dos autores clássicos e da diversidade da linguagem. Nesse sentido, é necessário voltar a Marx e Engels e observar o que estes dizem acerca da escola-jovem hegeliana, que apesar de enunciarem frases pomposas que revolucionariam o mundo se mostravam essencialmente conservadores: "quando afirmam lutar unicamente contra uma "fraseologia" esquecem-se de que apenas lhe opõe uma outra fraseologia e de que é lutando contra a fraseologia de um mundo, que se luta com o mundo que realmente existe." (Marx, K. e Engels, F. A Ideologia Alemã )  
Penso que não vale a pena descartar uma visão dicotômica e assumir simplesmente uma dialética "de três lados".  
No imperar da fraseologia se combate ideologia com ideologia, mito com mito, e o trabalho de verdadeiro desvelamento e questionamento científico é deixado de lado. Assim, dizer "quem não fala certo (de acordo com o padrão culto ) não pensa (certo )" é mostrar uma postura tão ideológica quanto afirmar simplesmente "Para Saussure (e todo o pensamento anterior ) a linguagem era espelho do raciocínio" e dispensar, com essa fraseologia, um estudo verdadeiro da linguagem, ou uma abordagem direta de Saussure e de toda a tradição abarcada numa "primeira concepção de linguagem". Prender-se a fraseologia é prender-se a ideologia. 

 

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