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Página pessoal de Marcos Carvalho Lopes

 

Vontade de Filosofia

Marcos Carvalho Lopes

Um quadro no Fantástico, a edição continua de volumes de filosofia vendidos à preços populares em bancas de revista; o sucesso editorial de livros como O mundo de Sofia e Os Simpsons e a Filosofia (entre outros ); apontam para uma valorização (comercial ) da filosofia. É fácil perceber que nos últimos tempos o Brasil tem apresentado sintomas de uma ‘vontade de filosofia', que, parece ser, algo incomum em nossa história. O problema é saber como e porque ocorre esse fenômeno.

“Como” – Sem dúvida a filosofia aparece nesses casos como mais um produto a ser vendido, no entanto, dentro de uma sociedade capitalista, não poderia ser de forma diferente . O problema é se a qualidade de mercadoria não “destrói” a essência da filosofia: o produto, para ser vendável, deve atender ao gosto médio, deve ser de fácil acesso e apresentar resultados imediatos em seu “uso”. Nesse sentido, a filosofia pode ser vendida como portadora de uma verdade redentora, como mais um misticismo decadente, uma fórmula mágica para ocultar os problemas. (Alguns manuais de filosofia seguem essa perspectiva, misturando Platão, Paulo Coelho, Heidegger, Buda, Lao Tsé, Cristo e Candomblé, em um sincretismo em que o não-pensar é o Nirvana ).

Noutro caminho, a filosofia é vendida como um produto que “ensina a pensar”. Quem acredita nisso é como alguém que tenta justificar qualquer coisa com a mesma frase do manual de citações... Se alguém não sabe pensar é impossível que aprenda a ler, ou aprenda a falar. Podem “esclarecer” ‘mas a filosofia nos ensina a pensar corretamente'. Se for assim, todos pensam errado e só o filósofo sabe pensar ‘certo': já é tempo de admitir que a filosofia não tem nenhum acesso especial à verdade. Se é assim, por que as pessoas se interessam por filosofia? 

“Porque” - As pessoas podem se interessar por filosofia na busca de auto-conhecimento. Nesse sentido, a tradição filosófica é verdadeiramente fecunda: de Sócrates à Agostinho, de Descartes à Hegel, de Nietszche à Freud...o mandamento que pede “conheça-te a ti mesmo” tem sido revisitado pelo pensamento filosófico. Porém, acho que, nessa direção a reflexão filosófica me parece tão pertinente quanto à literatura, a música, o cinema, etc. A reflexão, o jogo de espelhos sobre a questão da identidade pode ser feito a partir de qualquer referencial em que a pessoa se reconheça: a temática musical dor-de-cotovelo (de CPM 22 à Bruno e Marrone ) faz sucesso porque existem pessoas que se reconhecem em sua mensagem.

Mas, então: porque esse interesse por filosofia? A filosofia surgiu em Atenas quatro séculos antes de Cristo, em um contexto ”democrático” nas discussões sobre o que deveriam ser as leis. O debate político e jurídico colocou em questão a natureza, o bem, o justo, o belo, etc. Esses temas deveriam ser entendidos pela razão humana: os homens deveriam dialogar, questionar e buscar posicionar-se diante dessas questões. Em verdade, essa necessidade de provar racionalmente porque uma idéia é defensável, perpassou todo o desenvolvimento da cultura ocidental a partir de então... mesmo a religião cristã tentou equilibrar fé e razão, de tal forma que, diferenças filosóficas levaram a divisões dentro da Igreja e ainda hoje geram discussões.

O debate sobre questões éticas e políticas é uma necessidade constante da vida em sociedade. Quando não desenvolvemos uma crítica desses termos acabamos por ter de aceitar idéias que são impostas de fora. Numa sociedade capitalista, não pensar esses temas é aceitar as idéias que vêm prontas do mercado, da mídia, da propaganda, etc. Para não aceitar nenhuma ‘idéia pronta' é necessário perguntar: “quem formula as ‘idéias prontas' no caso da filosofia?”, “de onde vêm essas idéias ‘impostas de fora'?”. Diria que essas idéias são ‘impostas de fora' e ‘trivializadas' por filósofos. Filósofos que não estão preparados para o diálogo, que não querem debater à realidade a sua volta e, por isso, preferem a desprezar em nome de uma “verdade eterna e imutável”. O problema é que essa “verdade eterna e imutável” não existe em filosofia: esse ideal platônico, que separa o mundo do saber e o mundo da vida, é também marcado pelo autoritarismo de quem diz ter razão diante dos que são considerados “perdidos” em aparências. O “Big Brother” não existe, nem algo fora da sociedade a quem pudéssemos atribuir todas as culpas: quem são “eles”, senão “nós” que deixamos de questionar e aceitamos a repetição desse sentimento autoritário?

Se “eles” não entendem o que “nós” filósofos queremos dizer é também porque “nós” insistimos em não ser um deles: falando difícil, em um jargão inacessível, ou mesmo, em língua estrangeira (por vezes morta ) fechamos a porta para o diálogo. Devemos sim, estar abertos para pensar nossa realidade, como, por exemplo, faz Renato Janine Ribeiro, quando reconhece e pensa os limites do papel das novelas no debate ético na sociedade brasileira atual; só com essa postura aberta podemos alcançar uma percepção mais sincera da função dos mecanismos de comunicação de massa, sem nos determos em preconceitos.

Acredito que a ‘vontade de filosofia' pode ser vista como um sintoma do processo de redemocratização. A sociedade tem necessidade de pensar temas que antes não poderiam ser questionados diretamente: uma das primeiras medidas da Ditadura foi retirar a filosofia do ensino médio. Penso que o Brasil começa a se acostumar com a instituição da democracia e também desperta para a idéia de que precisa se reinventar enquanto sociedade também democrática: a Ditadura não veio de Marte, nem a corrupção, nem a desigualdade social, etc.

A cultura deve ser questionada para que a sociedade possa buscar alternativas e caminhos de transformação. Não acredito que a filosofia, tomada como produto de erudição ou como questionamento escapista, possa contribuir para a democracia. A abertura para o diálogo, para pensar a realidade é o que deve ser valorizado: se as pessoas têm essa abertura os filósofos devem responder à altura, ou seja, sem esconder-se numa erudição vazia ou no academicismo estreito. (Felizmente, não existe hoje muito espaço para os que querem pensar a Filosofia com “f” maiúsculo, promovendo a “tirania da razão”).

A opção seria a filosofia continuar como uma espécie de ‘seita para iniciados', como uma disciplina acadêmica distante da realidade cotidiana. Dessa forma a filosofia não iria aparecer, seria puro mistério. Importa apenas questionar se a filosofia que aparece não tende a confundir-se com aparências, ou seja, não tende a ser trivializada, como aconteceu com o existencialismo após a Segunda Guerra Mundial. Mas acredito que isso não é um problema: a trivialização da idéia de democracia, de direitos humanos, etc...não seria um problema.

 

 

 

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